segunda-feira, 31 de maio de 2010

Binah

Ilustríssimo Don Isidro.

A princípio, apenas peço para que leia as desventuradas linhas que se seguem:

Creio que a melhor forma de começar a contar aquilo que ficou denominado na história interna da Universidade de Bologna como o “Incidente das civilizações” seja um bar, um Johnnie Walker e alguns homens, sob a influência amistosa do álcool. Em uma noite do verão de 77 (ou seria 76?), o alto escalão do departamento de Semiologia da Universidade de Bologna, após conferência que reuniu importantes pensadores italianos, comemorava o sucesso do empreendimento em um pequeno restaurante na Piazza Magiore com o reitor da Universidade, o vice-prefeito e outros figurões. Inútil dizer que, passada a fome, apenas restou em todos o espírito comemorativo, apenas acalmado por garrafas amigas de whisky. Inútil também dizer a paixão, as bravatas e a acalorada discussão que se sucede de uma mesa de políticos, intelectuais e semiólogos, italianos, felizes e embriagados. A certa altura do jogo, quando as vozes estão mais altas e todos buscam impressionar, conheço-me, sob a o influxo do whisky, tendo a repetir duas histórias, que as domino e que as coloco na mesa sempre após as garrafas se esvaziarem, com a certeza quase inefável que elas, pela articulação premeditada ou apenas pela pompa, dar-me-ão a vitória, o certo Royal Straight Flush da partida.

A primeira das histórias é a de um sonho, em que toco trompa em um funeral de partigiani. Confesso, essa anedota tem mais impacto sobre as mulheres, na alta noite, no aconchego de um bar, de uma ruela abandonada, ou de qualquer outro local em que o assunto se acaba e recorro sempre a minha história, cuja resposta é sempre “que lindo”, seguida quase sempre de um abraço.
A segunda história é sobre o poder que o falso tem no correr da História. Essa história, que já tive oportunidade de mencionar em alguns livros, é impressionante justamente por ser insofismável; se a Verdade pode se apenas uma, todo o resto não passa de falso, algumas vezes sob a forma de dolo, muitas vezes sob a forma de erro. E esse erro, muitas vezes mais que a verdade, é o motor propulsor da História, encarnada em histórias que, quase sempre, levam à loucura, a perdição ou a morte, como a crença da Terra plana, ou que as virgens deveriam ser sacrificadas para aplacar a ira do deus-vulcão. Essa minha tese, que certamente escreverei um romance sobre, foi a história que contei aquela noite, como em várias outras noites e, salvo algumas variantes, foi narrada assim:
“Na Quaestio quodlibetalis XII, 14, São Tomás prediz: utrum veritas sit fortior inter vinum et regem et mulieram. Ou seja, se é mais poderoso, mais convincente, mais constritivo o poder do rei, o influxo do vinho, o fascínio da mulher, ou a força da verdade. Da afirmação Tomística, podemos concluir no poder da verdade, dentre outros irrepreensíveis poderes, como o de uma bela mulher, ou do éter ou o do monstro sagrado Leviatã que é o rei.
“No entanto, dizer o oposto, qual seja, de que o falso também tem o seu poder, não é contraditório. E para mostrar a legitimidade da minha premissa, que o falso é motor da História, terei de utilizar exemplos e, de conseguinte, de algum critério de verdade. Mas caso eu escolha um critério de forma dogmática, posso estar correndo o sério risco de me incluir no jogo, de fazer parte de acreditar em algo falso. Portanto, arrolarei os fatos, tentando não me levar por nenhum critério. Mas os fatos são por demais conhecidos: Se Cristo é filho de Deus, então não e o Messias esperado em Jerusalém, e se Maomé é o profeta de Alá, então é um equivoco orar para Buda. E quem seja indulgente ao ponto de acreditar simultaneamente na comunhão dos Santos, na roda da Tao e em Ogum, julgará como fruto do erro o massacre de tantos infiéis e de tantos hereges. Quem adora Satanás, todo o evangelho não passou de diversão de quatro escritores e quem é ateu, toda fé não passa de mal entendido. Destes fatos, podemos concluir que, se pessoas viveram – e morreram – acreditando em algo que outras pessoas julgaram pueril, e vice versa, a História, para determinadas pessoas, não tem passado de um grande jogo de ilusão.
“Tal exemplo acima dado pode ser contestado por alguma incerta filosofia, pouco ortodoxa, que autorize, concomitante, a crença e a descrença, sem que incidíssemos em erro” Respondeu-me com firmeza o reitor. “Portanto, para que creia na minha teoria, filiar-me-ei a outros conceitos de verdade – filosoficamente menos contestados – e, conseqüentemente, de outros falsos, capazes de seduzir e de levarem tantas pessoas ao erro, e à morte, sem descobrir que erraram. O exemplo canônico é o da forma da terra, a da invenção da Terra plana...”

Dizer toda a teoria significaria, neste ponto, esgotar os argumentos que utilizarei no decurso dessas linhas e, portanto, fica registrado apenas o gérmen daquilo que, alterado pelo whisky e infamado pela incredulidade de outros intelectuais, narrei vivamente para o reitor da Universidade de Bologna.


O fato que me passou despercebido, embora no momento soubesse que eu era escutado com atenção, é do quanto o Reitor ficou impressionado com a história. Apenas pude perceber isso quando, após algum bom tempo, ele apareceu no meu gabinete, propondo-me um curso de verão nas fileiras da Universidade, sobre o poder do Falso no correr da História. “Tenho tudo arquitetado em minha mente”. Disse-me empolgado. “Aulas-temas, cada qual com sua história, com suas mitologias, com suas conseqüências. Uma sobre a forma da Terra, o tabernáculo, o Dante que atravessou o inferno e chegou do outro lado do purgatório, Platão, Agostinho, a Igreja... todas aquelas coisas que me disse bêbado, creio que dirás muito melhor sóbrio...”. “Ou não” respondi, rindo. Mas o reitor não estava para brincadeiras... “Outra aula pode ser sobre a carroça de Feno que, conta a lenda, partiu de Paris na quarta feira, 11 de outubro de 1310. Outra sobre o pretensioso descobrimento da América. Outra ainda sobre a HollowEarth e como essa besteira conseguiu chegar até Hitler. Falando em Hitler, há muito o que falar sobre o terceiro Reich... As ligações com o ocultismo, a possível crença na Lança do Destino, os Protocolos dos Sábios de Sião... a história é rica, caro amigo”. “As histórias são ricas” corrigi eu. “A que ensinamos e as que estão aí, misturada com a literatura séria, com os pesquisadores, os cientistas e os charlatões, que são muitos. Enfim, todas essas histórias, digo-as para meus alunos sempre. Não vejo motivos para fazer um curso específico para este fim.”
“Há sim, caro amigo. O governo já há algum tempo incentiva cursos multi-étnicos, para que as instituições italianas estreitem relações com instituições e pesquisadores de outros países. E essa é uma grande oportunidade. Um curso sobre a História, ao revés. Ao invés da estrita dogmática, a múltipla interpretação. No lugar dos livros oficiais, as lendas. Ao contrário das teses e dissertações, as entrelinhas, os silêncios e as mea-culpas. Para um curso desses, nada melhor que uma sala formada por uma legião tebana, legião estrangeira”. “Urbi et orbi?”, pensei alto. “Quase. Porém, sem o Vaticano.” “Mas o Vaticano é um dos protagonistas da História do Falso”. “Pois ponha o Vaticano como protagonista. Refiro-me sem o Vaticano, como cronista, como contador oficial da história. Já como personagem, não me oponho... Um curso representativo, cada qual representando sua nação, seu idioma, seus antepassados, seu sangue e, principalmente, seu ponto de vista. Interessas-se pelo assunto?”.

Profusamente assenti, a idéia tomou corpo pelas mãos do empolgado reitor e, após a burocracia de divulgação do edital, tínhamos em mãos candidatos de todo o mundo para participar das aulas. Por fim, decidimos que, como era apenas doze o número de bolsas disponibilizadas, representaríamos sumariamente a história com doze alunos, representando doze nações e doze pontos de vista diferente. A escolha, obviamente, foi cruel e injusta. A representação, de qualquer forma, ficaria incompleta. Resisti aos estereótipos padrões, a do americano capitalista, a do russo leitor de Marx, mas, segundo o reitor, se o curso era representativo, não havia modos para fugir dos estereótipos. Dessa forma, os escolhidos foram os seguintes: um italiano, discente do curso de teologia de uma faculdade católica particular de Roma, um português, estudante de Direito da faculdade de Coimbra, um Espanhol, estudante de Ciências Naturais e participante de uma ONG contra a emancipação da Catalunha, um Francês, estudante de filosofia em Sorbonne, Um Inglês, estudante de Economia em Oxford, um Chinês, membro do partido comunista e estudante de História, um japonês, estudante de administração em Kobe, um russo, estudante de História em Moscou, um americano, estudante de economia em Harvard, um Israelense, antigo voluntário do Tzahal e estudante de Ciência Política em Cambridge, um Colombiano, estudante de direito da Faculdade de Direito de Bogotá e um alemão, membro de um partido de extrema direita e estudante de sociologia.



A primeira decisão da primeira aula foi decorrente desta escolha, e assim disse, para meus novos e tão distintos alunos, logo na aula inaugural:
“O curso pede para que não sejam vocês, em verdade, mas antes, todos os seus conterrâneos, todas as suas matas, todo o seu sangue derramado em batalha, toda a vergonha e toda a glória; tudo o que representa o país pelo qual vocês representam. E de conseguinte, mais apropriado do que pedir que se levantem, que digam seus nomes e seus passados, farei de forma diversa. Eu mesmo os apresentarei, não com os seus nomes, mas sim, com os nomes de seus países. Você é a terra que concebeu Shakespeare e Milton, ao passo que você foi o gérmen do iluminismo.
“Vocês, a partir deste momento, são o que são seus países e, por isso, torna-se desnecessária mais credenciais, já que é notória a história da Rússia ou da Itália, por exemplo”. E feitas as considerações iniciais, dediquei minha primeira aula aos templários e a todos os mitos que circundam esse fascinante tema. “o processo inquisitorial dos templários é até hoje fonte de fascínio por suas omissões e contradições. Os templários que, com o tempo, tornaram-se os primitivos banqueiros, concedendo carta de crédito para transportar riquezas pela terra Santa, infestada de sarracenos, tornaram-se poderosos ao ponto de fazer inveja ao rei, Filipe, o Belo. A lenda se inicia quando a história termina. Quer a tradição que os tesouros templários tenham sido enviados para a Escócia no dia 11 de outubro de 1307, dois dias antes da fatídica sexta-feira 13 que deu início ao processo inquisitório. Quer ainda a tradição que o tesouro templar seja algo maior que riquezas terrenas, seja algo que, quer por influência do Templo de Salomão, quer pelas constantes influencias dos orientais, eles obtiveram: algo tão grande, tão supremo, que deveria permanecer silente, para a manutenção da ordem mundial: algo como o sangue de Cristo. Não o sudário, nem outra representação terrena, mas o sangue vivo, pulsante, o sangue dos descendentes de Jesus e Maria Madalena que devem, segundo a tradição, ser os reis merovíngios. A história tem, como a de qualquer lenda, varias ramificações. Como exemplo, que a maçonaria simbólica é fruto dos antigos Pobres Cavaleiros de Cristo e que verdadeiras sociedades secretas foram criadas, após a extinção do Templo para assegurar que o segredo seja mantido e repassado em segurança para futuras gerações Quer a lenda que importantes fatos históricos, como a Revolução Francesa e a descoberta da América, tenham tido seu germe na extinção templar. Até hoje pessoas são movidas por essas idéias, e muitos são os charlatões que ficaram ricos, às custas dos Pobres Cavaleiros de Cristo. Se querem uma dica, transformem-se em charlatões e saiam por aí, dizendo de templários e do Santo Graal. Sei que pode parecer pretensioso, mas se buscam holofote e dinheiro, sem comprometimento com a crítica e com o bom senso, escrevam um livro sobre e saiam vendendo por aí.
“Um livro simples, claro, sem comprometimento estilístico. Alguém que descobre o segredo que os templários morreram para resguardar, o Santo Graal. Obviamente, tal pessoa entra em perigo, porque entidades mais ou menos secretas descobrem a revelação desse Messias e o matam, em nome do Segredo. Um livro policial sobre o assassinato do conhecedor do Segredo, que deixou cifrado várias mensagens para que soubessem do motivo do seu assassinato. Acrescente-se um romance barato qualquer na história e o final é um Best-seller, podem acreditar. Há um consumo muito grande por teorias conspiratórias. E essa de templários e do Graal é batata; todos já aproveitaram, com algumas vertentes e nuanças. Enfim, o livro deve deixar a entrever que o Segredo de fato existe, uma vez que suas premissas são muito sedutoras. O leitor e, eventualmente, o expectador comum anseiam pelo Segredo, da mesma forma que anseiam que o fim seja “felizes para sempre” ou que o protagonista beije a mocinha. Dizer que a realidade é simples ou que todos os indícios não passam de acasos, crivados pela História e que, de fato, podem gerar histórias muito sedutoras, é contra os princípios de quem quer vender livros ou filmes. É mais sedutor acreditar que existe de fato a Área 51, o Santo Graal, as conspirações de ilustres superiores desconhecidos para mantença da Ordem, por que, se assim fosse, as coisas todas, inclusive os erros e as mortes, ganham algum sentido, vago mas existente. Não acreditar nas conspirações é acreditar que vivamos ao acaso, e que as escolhas da História não passam de golpes da sorte, ou muitas vezes da falta de sorte”.
Obviamente, tive contestações sobre o influxo e o poder da História que havia lhes contado e, como era de se esperar, a maior parte das contestações vieram da “França”, como denominei meu pequeno pupilo de Sorbonne. Este não deu tanta importância aos fatos ocorridos com os Templários. “A lenda da carroça de feno, a lenda de que os Templários amaldiçoaram e mataram todas as gerações posteriores dos Reis da França, tudo é tão vago. Não creio que lendas assim sejam capazes de mudar o curso da História”, disse-me.

No dia seguinte, acordei com o telefone do Reitor, que assustado me disse. “um terrível fato ocorreu. Quero que venha para a Universidade agora. Já na Sala do reitor, deparei-me com meu aluno, ‘França’, com uma perna engessada e um braço esfolado. “O que houve?” “Ele foi atropelado ontem a noite” Disse o reitor. “Atropelamento doloso!”. “Como pode ter tanta certeza assim?” Perguntei, olhando para o semblante do Aluno, que apenas me entregou um bilhete.

Se representamos um curso sobre História, sendo que cada um de nós representa um país, nada melhor e mais cômico que representar a queda da monarquia Francesa, através da conhecida vingança dos seus conterrâneos Templários.

VENGEANCE
KADOSH
VENDETTA, TREMENDA VENDETTA!”



“Atropelou-me e deixou cair isso do carro. Sumiu sem que eu o pudesse ver. Chamamos a polícia?” perguntou o aluno. “Não podemos”. Disse o reitor. “Isso Iria atrair mais estudantes radicais e muitos curiosos. Não sabemos quão sério foi o escritor do bilhete e quais são suas verdadeiras intenções.” Calei-me, embora algo por dentro me fizesse compreender que, dentre os dozes países selecionados, estávamos diante de alguém bastante ortodoxo.

Esperei pelo próximo dia pensativo, sem conseguir dormir, demorando-me no fato, na carta, nas profusas, confusas linhas. Obviamente, tratava-se de um desafio, uma bofetada de pelica intelectual. Obviamente, o texto devia conter algum significado e, se não claro se me mostrou o conteúdo, muito claro foi que percebi que, aparentemente tratava-se de uma vingança dirigida a França, mas a carta verdadeiramente era dirigida a mim.
Momentos antes de começar a aula, ainda me corroia de dúvidas o fato de expor ou não o ocorrido. Se expusesse, poderia dar ao meu terrorista justamente o que este desejava: a atenção, os holofotes, a certeza que ele triunfara, ante meu semblante preocupado. De outra forma, se a carta realmente era dirigida a mim, não respondê-lo seria um ato de covardia, implicitamente entendido que eu não adivinhara a brincadeira e que, de conseguinte, ele triunfara. Por fim, não sem medo da reação dos meus alunos, disse, antes de começar outro tema, sobre o incidente.
“Um grave fato ocorreu e não permitiremos que ocorra de novo. Parece que temos em sala alguém que deseja demonstrar a História do Falso através de ações. No entanto, saibam que a polícia e nós da Faculdade estaremos de olho, para punir exemplarmente o infrator”. A reação não poderia ser pior. Um princípio de pânico, o sentimento do inimigo perto e oculto, depois a algazarra, tumulto, e o início já das ofensas, daqueles países que a História deu como destino a eterna rivalidade. Coibi rapidamente o tumulto, dizendo que, se alguma providencia tivesse de ser tomada, seria tomada por nós e não por eles, nas vias de fato. Não resisti e disse algo, que me inquietava por dentro.
“Por favor, quero a opinião de vocês sobre um fato, principalmente o da ‘Itália’ ”, que ficou ruborizado. “Parece-me claro que o atentado ocorrido guarda conexão com a história dos templários. Por isso, a palavra vengeance, grafada em francês. Também me parece claro – e isso mostra de fato a cultura do nosso inimigo – a palavra Kadosh, que significa vingança em hebraico e que é muito familiar a todos aqueles que estudam os templários e que, talvez não por acaso, seja um dos graus da maçonaria do rito escocês. O fato que realmente me intriga é a alusão ao Rigolleto, a peça de três atos de Verdi, a ‘Vendetta, tremenda vendetta’. Rigoletto, ao que me parece, não tem a ver com o mito do Templo e é anacrônico a este. Não vejo motivos para uma carta, dirigida a ‘França’, estar grafada em italiano. ‘Itália’, você tem algo a me dizer sobre isso?”
Meu aluno católico já ruborizado falou, aos solavancos. “Sei apenas o que o senhor sabe. Que é uma peça de três atos de Verdi. Aliás, confesso que, se alguém deve sentir medo, este alguém sou eu. Se bem sei o mito da inquisição dos templários, foram amaldiçoados a morrer em um ano o Rei da França, Felipe, o Belo e o Papa, Clementino V. E se atentaram contra a França, que deve simbolizar o poder da dinastia real, a próxima vítima tende a ser eu, que devo representar o poder da Igreja”.
“Nada vai te acontecer”, disse eu, não sem medo da verdade dita e da clareza de raciocínio, que muito bem poderia servir de inspiração para nosso inimigo oculto.
“Nada deveria me acontecer, até porque, como representante da Igreja, sei do passado dela e de suas ações e omissões. Sei que o papado de Clemente V, foi marcado por essa de templários e pela imposição feita por Felipe, o Belo para que a sede do Papa fosse em Avignon. A trajetória de Clemente, V foi influenciada pela cobiça e ganância desenfreada do poder francês. E quanto aos templários, consta nos arquivos da Igreja – e o senhor deve saber isso tanto quanto eu – que o papa absolveu os templários, mas foi pressionado por Felipe, o Belo, até transformá-lo em réus confessos, condenados a prisão perpétua, ou pior, em relapsos, que são os réus confessos que se retratam, que ganham a pena de morte. Se há culpa na história verdadeira, a culpa não é dirigida a mim, sequer à santa Igreja”
“Mesmo o processo inquisitório contém omissões e obscuridades que, de fato, tornam a História verdadeira hoje indecifrável. Não saberemos o quanto há de mocinhos nos templários, nem sabemos o quanto há de vilania no poder temporal francês ou na Igreja. Por favor, agora, peço apenas para que esqueçam o ocorrido, e para que continuemos com as aulas.”

A aula foi difícil, como pode imaginar. Todos pensativos, todos receosos, à espreita, a espera de algo, o inimigo provavelmente entre nós, rindo-se por dentro e acreditando na perfeição da execução do plano. Emendei a história dos Templários e disse sobre a crença da Terra plana:

“A crença na Terra Plana, de fato, representa o poder que há o Falso; o poder quando um determinado grupo refuta a verdade, em nome de um dogma: no caso, não exatamente a crença na terra plana pelo pensamento religioso medieval, mas sim, a atribuição feita pelo poder laico, positivista e oitocentista de que o os religiosos medievais acreditavam na terra plana.
“Ainda hoje, mesmo em círculos acadêmicos, indague-se o que Cristovão Colombo se propôs – atingir o Levante pelo Poente – e o que os doutos de Salamanca falaram para dissuadi-lo da idéia. A resposta será comumente esta, fruto da crença do Falso: Colombo julgava que a Terra era redonda, enquanto os doutores tinham a crença que as caravelas chegariam ao abismo cósmico, que se inicia no momento em que a Terra termina.
Estudiosos do tema determinam que o erro não está na crença da Terra plana, pelo pensamento religioso da idade média, mas sim, nos pensadores da Idade Moderna, que atribuíram este clichê para demonstrar o quão errada estava a Igreja. O Século XIX, anticlerical e positivista, lançou esse clichê para demonstrar que o pensamento religioso, como errara com a teoria da Terra plana, agora errava em relação às refutações dos pensamentos darwinistas. De fato, a igreja tinha de se ver com o modelo do Tabernáculo, descrito na Bíblia. De fato, há pensadores religiosos que se atentam ao modelo do Tabernáculo – e o mais famoso deles foi Cosme Indicopleusto, em sua Topografia Cristã. Mas mesmo este não teve muita voz e seu livro foi traduzido para o latim apenas no século XVIII, mais a título de curiosidade do que modelo de rigor científico. Antes de Galileu, muitos outros sabiam sobre a esfericidade da Terra. Sabiam Macróbio e Marziano. Sabiam Isidoro de Sevilha, que calculou o equador e Dante, que atravessa a Terra, e chega aos pés da montanha do Purgatório. Sabiam Alberto Magno, Tomas de Aquino, Roger Bacon, Nicole d’Oresme ou Giovanni Buridano e até Ptolomeu, caso contrário, não poderia ter dividido a Terra em 360 graus...”
“E porque então os mapas medievais retratam a terra, como se fosse plana?”, perguntou-me ‘Portugal’.
“Ora. A princípio pela ingenuidade dos cartógrafos medievais. Este se preocuparam com a manifestação do imaginário, não a representação do científico. Demonstrar, no mapa, as cidade, sem preocupação com sua posição, não é premissa para afirmar que não acreditassem na esfericidade da Terra. E mais ingenuidade ainda é a dos historiadores posteriores, que não foram capazes de distinguir essa sutileza...”

Assim, salvo pequenas alterações, deu-se a aula, com poucas perguntas, muitas das quais, pelos maiores interessados, o estudante de Direito de Coimbra e o Aluno Espanhol. Terminei a aula e fui visitar meu aluno ‘França’, que ainda se recuperava do susto. Pedi-lhe o bilhete para buscar algum significado que me passou despercebido. No bilhete, volvi-me a tarde inteira, quase no por do sol, novamente o reitor me ligou desesperado. “O que está acontecendo, Professor? As coisas estão saindo do controle. Venha logo para cá.” Novamente um atentado, novamente um aviso. Dessa vez contra ‘Espanha’.
Um sujeito encapuzado arrombara seu apartamento e o espancara com um taco de beisebol. Definitivamente, nosso terrorista não estava de brincadeiras. “Algum recado dessa vez?” profetizei. O reitor entortou os beiços, fez um muxoxo e estendeu a mão, dando-me o já esperado bilhete.



“A história do falso é realmente fascinante, como a da Terra Plana. E se realmente por conjecturas erradas Colombo chegou à América, não foi por erro que estes vermes espanhóis mantiveram o jugo por tanto tempo as nações sul americanas. E que engraçado! Mesmo sua chegada faz parte da História do Falso. Até hoje nos ensinam que Colombo descobriu a América, não obstante todos saibam que por aqui até mesmo Erik, o Vermelho chegou antes.

A dívida que têm estes conosco é tão grande e, como se não bastasse, temos a amarga lembrança de estudarmos estes malditos como descobridores e não como sanguessugas e, ainda, temos como alcunha o nome Colombianos.

Morte, deste espanhol e de todos os demais.

Viva San Martin!”


“Chamamos a polícia?” indagou-me o reitor. “As coisas estão tomando rumos não previstos...” “Isso é o que nosso terrorista quer” disse-lhe. “Atenção, nossa e, principalmente, da mídia. Ele está passando uma mensagem. Precisa de expectadores e está ansiando por isso”.
“Pois está conseguindo, professor. Nos corredores da Universidade, já todos comentam, já todos receosos, todos os comentários são dirigidos ao lunático estrangeiro que infiltramos aqui. Ou chamamos a polícia ou acabamos de vez com o curso.”
“Se acabarmos o curso agora, nunca conseguiremos descobrir quem é o terrorista. Por favor, amigo, peço mais tempo, apenas. As cartas são dirigidas a mim, são como um convite para que o descubra. Por favor, apenas peço mais tempo...”
“Pois bem, terá mais tempo. Mas espero que não me arrependa disso...”

A segunda carta era mais clara. Não continha sutilezas de peças de Verdi, nem vindicava vingança em hebraico. Viva San Martin, dizia, como convém a todo sul-americano orgulhoso de sua libertação e envergonhado de suas origens. Viva San Martin, a vergonha da alcunha de Colombo, o mito do descobrimento espanhol da América. O significante e o significado eram claros demais para haver subterfúgios, obliterações, subliminares. A ira do colonizado frente ao colonizador. A revolta do criollo frente ao europeu. A carta era por demais clara e só me permitiu lê-la em voz alta, para o meu grupo de alunos, que já contava com a volta do cambaleante “França”, mas não com “Espanha”, que permaneceu repousando em casa.
Todos aparentemente sentiram um calafrio, a confirmação que algum louco, messiânico espectro, rondava a representação dos países ali envolvidos. Seguramente, o aluno que mais aparentou aflição foi “Colômbia”.
“Não... não fiz nada disso, e posso provar. Fiquei em casa a tarde inteira, lendo sobre o estudo dos cartógrafos setecentistas. Se fosse eu, não seria tão estúpido ao ponto de me incriminar ao fim...”
Gaguejou e repetiu a sentença, algumas vezes. Se realmente fosse, assumiria o atentado e não se esconderia, atrás do medo, atrás da indecisão. “Provavelmente” pensei eu “não se trata do terrorista esse pobre rapaz”. Mas essa não foi a opinião comum da sala.
“Mas esse colombiano é a única prova que temos. Deve ser denunciado”. Disse ‘Rússia’.
“Deve ser denunciado e preso” concordou o Americano. “E só assim saberemos se os incidentes continuarão. Se não continuarem, achamos o culpado”.
“Não será denunciado, muito menos preso”. Disse eu. “Não há provas suficientes. Todas essas cartas dão mais a impressão de um simulacro do que de um verdadeiro atentado. Não creio realmente na coragem do nosso covarde terrorista...”
Foi difícil concentrar-me no tema que me havia proposto para aquela aula. Em todo rosto via a sombra de um ditador, de um déspota, de uma ideologia ortodoxa, daqueles países, manchados a ferro, sangue e lutas. Mesmo assim, decidi não mexer no cronograma e assim foi que falei a eles do mito Rosa Cruz. Disse sobre o clima de renovação espiritual que se mostrou no século XVII, projetado por Repúblicas ideais, como a Cidade do Sol e a Cristianópolis.
“Eis então que surge a Fama Fraternatis, um documento em alemão pelo qual uma pretensa sociedade Rosa-Cruz afirma sua existência e seus domínios – uma sociedade em que abunda o ouro e metais preciosos, que serão utilizados para que Reis governem de acordo com as leis divinas. Após, surge outro documento, em latim, denominado Confessio fraternatis Rosae Crucis. Ad eruditos Europae, que perambula entre a alquimia e a profecia e, mesmo soando contraditoriamente, informa que seu edifício é intangível e mesmo que milhares de homens o vissem, não poderiam distingui-lo; por fim, diz que, se alguém quiser falar aos Rosa Cruzes, fale em qualquer língua e será entendido, seja viva voz, seja por escrito. Fortalecido o mito, restam as histórias: de toda a Europa, escrevem-se para os Rosa-cruzes; todos dizem conhecer, mas negam ser membros da ordem e esta torna-se a característica conhecida dos pretensos Rosa-cruzes. Afirmar a existência da Ordem e negar que pertençam a seus quadros. Julius Sperber, Robert Fludd, Michael Maier, Descartes, Francis Bacon, todos pretensos membros da ordem. Quanto a Francis Bacon, muitos foram os estudiosos sérios que perderam seu tempo, acreditando no mito que William Shakespeare fosse uma invenção criada por Bacon.
“Efetivamente, o mito Rosa-Cruz produziu desenvolvimentos históricos grandiosos, mesmo que não fosse essa a intenção de seus criadores. Conjectura-se que se criou uma sociedade secreta, que conseguiu conectar-se com outras sociedades, introduzindo seus símbolos nestas. E eis que surge o mito de que sociedades secretas dirigem o mundo, através de Superiores Desconhecidos. Em 1789, o Marques de Luchet advertiu: ‘Formou-se no seio das mais densas trecas uma sociedade de novos seres que se conhecem sem jamais se terem visto. (...) Esta sociedade adota do regime jesuítico a obediência cega, da maçonaria as provas e as cerimônias exteriores, dos Templários as evocações subterrâneas e a incrível audácia’. Após, em resposta a Revolução Francesa, o abade Barruel escreveu sobre uma pretensa sociedade criada a partir da queda dos Templários para destruir a monarquia. São diabólicos membros são: Voltaire, Turgot, Condorcet, Diderot e D’alambert – e destes surgem os jacobinos, que são controlados por outra Sociedade, os Iluminados da Baviera. A Revolução Francesa foi o ápice deste complô...”
A aula transcorreu mais ou menos bem, poucas foram as perguntas, já que o medo ainda era dominante. O cenário da sala de aula já estava diferente. Poucas eram as palavras e os comentários, quase nulos os risos que reinavam no primeiro encontro, o riso natural de doze jovens, inteligentes e promissores, de diferentes regiões do mundo, bancados pelo governo Italiano. Ao fim da aula, não resisti e disse, como se quisesse quebrar o gelo, mas que soasse sério. “Tome muito cuidado nosso querido terrorista. Mal sabe ele que, em minha juventude, eu era conhecido pela alcunha Sam Spade.”
Mas não riram, e eu me senti um pouco tolo...



Pela tarde, refleti sobre o tema dado. Se o terrorista atacasse, provavelmente seria algo relacionado com a aula. Fui ao apartamento de ‘França’. Bati na porta, por alguns minutos e esta não se abriu. Por um instante, um enorme pavor tomou conta de mim. Pensei em pedir auxílio, pensei na polícia, nos jacobinos, e não criei coragem de arrombar a porta. Quando decidi chamar o reitor e terminar com essa loucura, ‘França’ apareceu-me diante dos olhos.
“Ocorreu algo, Professor? O que o senhor está fazendo em frente a minha casa?”
“Graças a Deus não ocorreu nada” e, por um momento, senti vontade de abraçá-lo. Vi-o, estava sorridente, o gesso recém colocado, uma mancha vermelha no joelho esquerdo.
Ele percebeu. E disse, sem que eu o perguntasse. “Fui colocar o gesso definitivo e trocar os curativos da minha perna”
Mais alguns instantes de conversa, um mensageiro veio me dar a notícia que o Reitor me esperava. Imaginei que não eram boas notícias e, de fato, não foram.
“Professor. Esta foi a última das brincadeiras. Chamei a polícia e eles farão uma vasculha nos alunos. Ninguém mais sai nem entra na universidade.”
“O que aconteceu?” perguntei.
“Aconteceu o óbvio. Mais um atentado, mais uma carta. Dessa vez, com o Inglês. Quando este chegava a sua casa, foi atacado por trás, com uma paulada. Desmaiou e, por sorte, uma vizinha o viu deitado, junto com este bilhete”.

“Tuas irônicas manias de se envolver no território alheio só me permite que eu o ataque, para que perceba que não consegue nem mesmo cuidar de si próprio. Se por ilustres desconhecidos fizemos nossa Revolução, não é necessário destes invisíveis para que saibam da nossa força, como nos 100 anos de Guerra, da visibilíssima Joana D’Arc.

Malvinas Argentinas!

Hong Kong Chinês!”


“Professor. Por ora, as aulas estão suspensas. A polícia tomou o caso, fará perícia sobre os atentados e tomará o nosso depoimento e também dos alunos. Ninguém dos estrangeiros pode deixar a Itália. Já até preparamos o setor jurídico, para informar o corpo diplomático do país terrorista. Seja quem for, este pequeno verme não nos escapará...”
A linha de raciocínio da polícia era simples. Metódica. Padronizada. Tomaram primeiramente meu depoimento. Por algumas perguntas, cheguei a imaginar que quisessem me incriminar. Fiquei nervoso e eles perceberam. “Apenas o procedimento padrão, professor. Não é nada pessoal...”. Nada pessoal, também pensei, e imaginei que o gordo oficial de polícia, que tem o padrão de realizar perguntas incriminadoras, apenas para testar o psicológico e a serenidade dos depoentes e que não soubesse quem fora Clemente V, São Bernardo ou José de Arimatéia. E, por isso, pensei, duvido que terão sutilezas ao ler as cartas. E também nada pessoal, mas imaginei – e tal pensamento se concretizou – que perguntas meramente incriminadoras não iriam fazer o nosso terrorista se trair, ou confessar. Este, pelo modo, era frio, perspicaz e, principalmente, sabia das regras do jogo...


Por isso, decidi fazer minhas próprias buscas, ao lado da investigação policial. Com um pouco de má vontade, permitiram que eu fizesse uma fotocópia das cartas do terrorista. Estas seriam minhas primeiras e mais importantes evidências. Por fim, um bilhete contra o intervencionismo Inglês. A menção à Guerra dos 100 anos que se iniciou após a morte de Felipe, o Belo e as conseqüências da titularidade da coroa francesa. Novamente, a maldição sobre Felipe, o Belo. Novamente, os malditos templários... mas não se tratava apenas de um problema francês. Ali também estavam Falkland, ou as Malvinas e também Hong Kong, ou "Xiānggǎng", como estava escrito, em mandarim. Com a terceira carta, multiplicou-se a possibilidade de o terrorista ser do país citado nas cartas: a primeira, Itália. A segunda, Colombia. A terceira, França, Argentina ou China.

Reuni a tríade de bilhetes. Comparei a caligrafia e, salvo análises não enxergadas a olho nu, as três possuíam a mesma letra, da mesma caneta, o mesmo tom sistemático de escrita. Mais me parecia um único terrorista e não diversos países, vingativos. Nestas cartas, repousei minha atenção por quase duas semanas, o tempo em que a polícia investigou todos os alunos. O fim da investigação, como eu temia, foi inconclusivo. Nenhuma prova, nenhum aluno que se entregou frente às características inquisitórias do Comissário. Lamentavelmente, eu também não enxerguei nada nas cartas, a não ser o óbvio; as ameaças, os ressentimentos. Autorizado pela polícia, que agora permaneceria atenta, o Reitor permitiu que eu continuasse com o curso, com a condição que a próxima seria a última das aulas.
“Não só nosso corpo discente está preocupado. A polícia, a mídia, até jornais estrangeiros estão noticiando o caso. Continuar com o curso, em uma situação dessas, é grotesco e não científico. Por favor, Professor, apenas dê a última aula, com tom conclusivo, para que não pensem que as aulas ficaram pela metade. Depois disso, acabe com tudo, por amor de Deus”.
Resignado pelo meu fracasso, entrei taciturno na aula, alheio ao fato de estar entre um louco. Todos os alunos estavam presentes; os demais, o terrorista e todos os que sofreram atentado, mesmo ‘Inglaterra’, que se recuperou muito rapidamente.
Disse: “Durante o curso, dissemos de teorias que, mais ou menos, todos ouviram falar. No entanto, no estudo do falso, há também espaço para teorias malucas, mirabolantes e que, de alguma forma, influenciaram seu meio e tempo”.
Disse assim sobre o Capitão J. Cleves Symmes, de Ohio, que escreveu: “Ao mundo todo: declaro que a Terra é oca e habitável em seu interior, que contém um certo número de esferas sólidas, concêntricas, isto é, colocadas uma dentro da outra e que é aberta nos pólos por uma extensão de doze ou dezesseis graus”. Disse assim sobre a retomada da tese por Cyrus Reed Teed e que, depois da primeira Guerra Mundial, a teoria foi introduzida na Alemanha por Karl Neupert, que fundou o movimento Hohweltlehre. Segue a lenda que a teoria foi levada a sério nas altas hierarquias alemãs, na estrutura da Guerra, como na Marinha alemã que usou raios infravermelhos para localizar navios ingleses, com a justificativa de que a curvatura da Terra Oca não obscureceria a visão.
“Que os nazistas eram loucos”, disse para meus alunos, “não é necessário elaborar teses”. Mas o fato é que, mesmo hoje, muitos são os espertalhões que especulam com um público de tolos sobre a Terra Oca.
Com essa história, terminei o curso. Disse que eram doutores sobre a história do falso, e me despedi, com a certeza que um dos alunos ria por dentro de mim.
Cheguei à minha casa, exausto das ultimas semanas e, embaixo da porta, descobri a seguinte carta:

Ao que me parece, o Professor desistiu completamente da brincadeira de me encontrar. Não fique desolado, caro Professor. Estou entre você e entre os demais alunos da sala. Não perca a chance de descobrir quem sou e de mostrar todo o ódio que deve sentir, por eu desviar inteiramente a atenção do seu curso e por me mostrar mais inteligente que você.

Não sou invisível, como o Conde de São Germano e prova disso é que assisti atentamente suas aulas, fazendo perguntas, mostrando-me interessado. No entanto, parece que você não foi capaz de entender as entrelinhas dos atentados e, conseqüentemente, do meu verdadeiro propósito.

Portanto, fica aqui a dica: em uma semana, exatamente, realizarei mais um atentado. O último. O primeiro, levado a cabo - a morte do País que desejo. Mas para que não pense que sou indelicado, darei todas as coordenadas do meu futuro assassinato. Elas servirão para guiar o senhor em suas buscas – e espero realmente que tenha sucesso – e, principalmente, para mostrar meu propósito, que é justo e verdadeiro.

Não apenas matarei, por paixão, mas sim, antecipar-me-ei àqueles que planejam minha bancarrota. Neste momento, eles estão reunidos, em um cemitério, tramando seus ardis e malignos planos, para acabarem comigo. Essa é a dica. O senhor sabe de quem falo. O senhor sabe que tenho razão...

No entanto, não ousar pensar que a morte representa apenas uma vingança antecipada daqueles que querem meu mal. Se fosse esse o caso, apesar de extremamente gravoso, poderia eu muito bem esquecer, esquivando-me apenas dos senhores secretos que atentam contra mim. Creia-me, minha benevolência é grandessíssima, e não duvide disso. A morte que executarei dentro de uma semana tem, mais que a vingança, um sentimento maior, de aprendizado, de símbolo para que os pósteros aprendam e para que nunca ousem sequer cogitar planos malignos contra mim.

E porque a morte para ensinar, deve perguntar você?
Porque apenas na tragédia aprendemos, respondo. Apenas na peste, nos dilúvios, nas emboscadas, no fim inesperado é que aprendemos a dar valor à vida e dar valor ao que realmente importa.
A tragédia alheia, por mais perversa, por mais injusta que seja, é a melhor dos professores, meu caro Professor.


Para entender meu plano, não é necessário ser um Sam Spade, como pretendeu. Basta que seja um Dupin porque, caro professor, neste caso, o pensamento vale mais que a ação, pode acreditar...




Trêmulo, inexato, deixe-me sentar na cadeira, relendo diversas vezes a carta. Após uma noite em claro, não tive dúvidas.
“Reitor. Quero mais uma semana com os alunos. Preciso dar mais uma aula e, sem esta, o curso ficaria incompleto.” Este relutou, disse que eu estava louco, que deveríamos o quanto antes acabar com essa loucura. Obviamente, omiti a carta. Se a mostrasse e se insistisse com o curso, muito possivelmente o reitor colocaria meu nome em processo interno, pedindo pela minha exoneração sob alegação de insanidade. Os atentados mexem com os nervos de todos na faculdade. Eu, de outra forma, recebi a última das cartas e creio que, com esta, posso dar fim ao enigma.
Caro Don Isidro. Fica aqui a linha de raciocínio que se deu em mim, alterado pela insônia, pela vigília transtornada, alternada com pesadelos de países em guerra, e de inimigos labirínticos, sem nome e sem rosto, imemoriais como os que o senhor invariavelmente decifra. A primeira das dicas, certamente, é o Conde de São Germano, aquele que dizem imortal e que consegue transmutar o ouro. A segunda dica é reunião no cemitério, tendo como fim aniquilar o País. Pensei, pensei e cheguei à conclusão que essa tela se refere ao Joseph Balsamo, o livro de Dumas, em que superiores desconhecidos, liderados por Cagliostro reúnem-se em um cemitério para planejar o golpe do Colar da Rainha.
Ora, dessa forma, as evidências parecem se encaixar. Primeiro, a referência ao Conde de São germano, famigerado e idealizado alquimista. Segundo, o plano do golpe do Colar, realizado por Cagliostro, que, segundo a lenda, foi discípulo do conde de São Germano.
Feitas essas considerações, dou o próximo passo: no livro de Dumas, Joseph Balsamo, que é verdadeiramente Cagliostro, reúne-se com seus companheiros em um ritual no Monte Tonnerre. Após, com os demais líderes, promete acabar com todas as monarquias do mundo, começando pela principal: a monarquia francesa.
Na carta que recebi, foi-me claro que o terrorista tem um claro sentido: antecipar àquele que pretende sua queda. Logo, segundo o próprio, ele deverá matar aqueles que estão se reunindo no cemitério. Ora, os que estão se reunindo no cemitério são liderados por Cagliostro, tido por uns como alquimista e por outros como farsário. Cagliostro é de sangue siciliano e, embora tenha viajado o mundo com dinheiro alheio, foi na Itália que teve seus maiores dias: é, definitivamente, italiano. Dessa forma, só posso imaginar que a próxima vítima será meu aluno Italiano
Por outro lado, também me parece cristalino como água que, se o terrorista quer se antecipar àqueles que planejam a queda da monarquia francesa e que tendem roubar o colar, este terrorista só pode ser a França, pois é esta o símbolo maior da monarquia e alvo de Joseph Bálsamo, o Cagliostro.
Parece-me que estamos diante de uma pessoa que é absolutamente a favor da monarquia. Suas cartas todas foram pretextos para enxergarmos as monarquias seculares européias. A última das cartas, parece claramente uma vingança contra todos aqueles que se insurgem contra o trono, seja lá o que isso represente.

Nessa carta que lhe escrevi, não omiti a verborragia, as entrelinhas, os ditos por não ditos. Fiquei receoso que algum detalhe – importante para o terrorista e banal para mim – passasse despercebido. Por isso, fiz-me diálogos e narrativas, a ponto de tentar fazê-lo entrar na história e sentir um pouco das emoções e fobia que me acometem nesses últimos tempos. Do que minha memória permitiu, creio ter contado tudo. As cartas, ipsis litteris, os meus diálogos, o teor das minhas aulas, a relevância do que me foi dito pelos alunos, a negligência burocrática da polícia e a fobia política do reitor. Perdoe-me se fui excessivo, mas creia, neste caso, um detalhe pode ser crucial e, portanto, pecaria mais pela falta que pelo excesso.

Don Isidro, por favor, confirme minha teoria, pelo prazo fatal desta semana vindoura. Caso um novo incidente aconteça – e pelas tintas pintadas, tal incidente parece que será mortal – estarei também eu morto. Serei certamente o culpado já que negligenciei uma profecia de um terrorista que mostrou não brincar em serviço.

De toda forma, fica antecipadamente meu apelo e a gratidão, caso tenha chegado até o senhor essas prolixas linhas. Por fim, deve estar pensando ainda: “porque diabos este infeliz me escolheu?”.

E não posso ficar sem responder essa pergunta. Durante a vigília, entrecortada por terríveis sonhos e por pensamentos de reuniões secretas em cemitérios, veio-me uma luz, antecipada pela carta. “Não é necessário que seja um Spade. Basta que seja um Dupin”. Não é necessário que seja um agente secreto, audacioso e ágil. Basta que seja um pensador, um puro pensador, capaz de, mesmo longe, mesmo preso em sua escura cela, conceber uma resposta para o problema. Nessa hora pensei em você, regozijando-me pela dica dada pelo inimigo. “Não posso ter o auxílio de Dupin, já que este morreu. Mas tenho o grande Don Isidro, que, em sua escura cela, conseguirá me enviar um precioso facho de luz”

Por favor, Don Isidro. Responda-me esse enigma, nesta semana ainda, pelo meu bem e pelo bem dos países que aqui estão. Por favor, ajude-me e prometo que sempre lhe serei grato, e prometo-te ainda que, por minha voz, todo o mundo conhecerá dos seus méritos.





































Caro Professor.

Primeiramente, pecaria se me furtasse de dizer: se realmente este aluno – ou País, como o senhor diz – matar outro, não se desespere. Com toda essa lábia, com todo esse vasto conhecimento, pode muito bem o senhor se embrenhar na loteria, ou na feira. Os mamões e os jogos aziagos também precisam deste falatório que você ostenta e, cá na Argentina, muitos são os gaúchos e malandros que vêm do Sul e que se tornam reis, em La Boca ou Palermo, por muito menos recursos que, com custo, li.
Mas como diria o promotor responsável pela minha estadia na cela 173, passemos das preliminares, porque o que importa é o mérito.

Traçarei os pontos de acordo com o que foi me passado em sua laboriosa e extensa carta. Um, teu assassino não mata por prazer. Não é assassino por oficio, quero assim dizer. Mata porque tem um motivo e deixa isso muito claro. Ora, ele está pregando. Ele quer doutrinar algo, que pretensamente será revelado dentro dessa semana, e para isso utilizará a morte. Por quê? Segundo sua carta, porque a morte é o melhor professor. Dois, obviamente, essas linhas demonstram a excitação de ter seu plano quase concluído. Ora, a questão de se ensinar pela tragédia alheia não é coisa que a humanidade conhece há pouco tempo, e muito menos o teu assassino. E isso, professor, ele deixou sublinhado nas outras cartas, mas não conseguiu mais disfarçar: quer que as pessoas o escutem através do derramamento de sangue e de lágrimas. Vejamos: nos três primeiros atentados, teu covarde aluno deixou cartinhas, não muito amáveis para determinados países. Nas três cartinhas, amalgamou fatos e tragédias de outros países, objetivando que nos perdêssemos neste pequeno labirinto. No entanto, apesar de tantos fatos diversos e de tantas acusações, nas três cartas, usou um único elemento comum: o uso da alegria. Na primeira carta, utilizou o termo “nada mais cômico”. Na segunda, o excerto “e que engraçado”. Na terceira, “tuas irônicas manias”. Relacionou as mortes, as vinganças e os erros de tantos séculos e de tantos povos com a utilização da comédia. E, afoito por doutrinar, por mostrar um arquétipo de morte que deverá servir de exemplo e temor para todas as vindouras gerações, não se agüentou: disse por fim que o ensinamento só vem com o sofrimento. Essa é a primeira chave. Se te parece banal a antítese tragédia & comédia, é por ela que é guiada a mente do assassino. Fazer com que mudemos nossas vidas justamente por enxergar tragédias alheias foi escrita por Aristóteles. A isso, o bom grego chamou de Catarse. Com ela, justificou a tragédia. A catarse, seja real, seja feita pelo teatro, tem o objetivo de mostrar que as tragédias também podem ocorrer conosco e que, por isso, devemos ficar felizes com a vida que temos. As noções de tragédia e de comédia estão inseridas no que restou do livro Poética. Vale lembrar que a segunda parte, justamente a que trata da comédia, desintegrou-se com o tempo, ou por dolo de pessoas que não tinham interesse com que o riso fosse cultivado na sociedade como lícito. Ora, quem foram as pessoas que ortodoxamente destruíram tudo aquilo da filosofia antiga que pudesse ser contra os seus interesses. Não precisa ser Spade ou Lönnrot, Dupin ou Don Isidro para concluirmos na Igreja Católica. E porque a Igreja católica teria interesse em acabar com a comédia Aristotélica? Simplesmente porque sua doutrina é baseada na subserviência e na pobreza, na humildade e no opróbrio do corpo, na vigilância e na caridade, que são inimigas de almas felizes. O pesado Cristo na cruz, os mártires, o latim, os doutos, nada combina com a alegria, que é vã, própria dos bêbados, dos loucos e das putas. Ora, nosso pequeno assassino quer pregar seu sermão secular, matando outra pessoa. Pode imaginar um assassinato que sirva de exemplo para a posteridade? Pois, se não imagina, clarearei a segunda parte do problema. Disse o assassino que seus inimigos planejavam contra ele em um cemitério, correto? Pois bem, uma frase de efeito de um livro conhecido (que certamente o assassino julgou ser por você conhecido). O resultado para ele foi frutífero - levou você a pensar justamente no que ele queria. No livro de Dumas, no Cagliostro e no golpe do colar. Embora trancafiado em minha cela, não me foi difícil pesquisar sobre a tal reunião do cemitério e descobrir outro livro, que trata de uma outra reunião, também em um cemitério. Obviamente, uma cópia clara de Dumas. Em 1868, um tal Hermann Goedsche, sob o pseudônimo de sir John Retcliffe, escreveu um romance anti-semita, denominado Biarritz. No entanto, sem superiores desconhecidos e sem golpe de colar. Neste livro, quem se reúne no cemitério são judeus, que pretendem dominar o mundo. Como já disse, nada mais que um livro anti-semita, um dos precursores dos Protocolos. Por certo, nosso assassino fala desta reunião e não daquela fantasia de alquimistas e maçons de Dumas.
Pois bem, repergunto: um estudante do Vaticano, ortodoxo o bastante para reafirmar as loucuras da Santa Inquisição, pretende matar, em nome do Senhor e com o intuito de que todos observem a vida em seu termo e que aprendam com essa catarse. Quem esse Estudante quer matar, senão aquele que já padeceu na cruz? Obviamente, o martírio só pode ser realizado com aquele que pertence ao povo santo do Senhor e aquele que uma vez já morreu por todo. Afinal, se no seu curso de História cada um representa seu povo e sua história, o israelense, de certa forma, não deixa de ser Jesus Cristo.








Isidro Parodi.































Caro Don Isidro

O acontecimento da última semana, por mais que o Reitor insistiu para que ficasse intra-muros, não foi suficiente para que muitos curiosos e jornalistas sem escrúpulos noticiassem as verdades e as mentiras, para a Itália e para além-mar. Digo isso por que já deves saber, mesmo da tua cela, mesmo dentro da tua escura prisão, o ocorrido. De toda forma, seria totalmente indelicado de minha parte se não noticiasse eu mesmo os acontecimentos finais e mais uma vez, agradecesse sua enorme perspicácia e benevolência.
Por ventura, tua carta me chegou a tempo. Às vésperas do acontecimento fatal. Li afoito e não com amargura descobri que o assassino era meu conterrâneo. Assim, fui à polícia e, junto com o Reitor, informei que o italiano estava planejando matar o Israelense. Riram de mim, porque não olvidei nenhum fato: nem mesmo minha credulidade em um estrangeiro, preso e, pior, personagem de um livro. Apenas fui levado a sério – e, conseqüentemente, duramente repreendido – quando mostrei a profecia em forma de carta a ser concretizada em uma semana pelo terrorista. Por este motivo, ainda sob a incredulidade geral, fomos à casa do italiano, esperando que este ainda estivesse lá. No entanto, não estava. Arrombamos a porta e nada encontramos a não ser hóstias, cálices de vinho e muitas imagens de Cristo, todas imagens sofredoras. Também, não havia nenhuma pista, nenhuma suspeita que nos levasse a crer que o italiano fosse nosso assassino. O Reitor me olhou severo, como se me reprovasse. Mas o tempo, que tanto você desafiou durante sua vida, era nosso inimigo e não tínhamos a faculdade de criar conjecturas e eliminar suspeitos naquele momento.

Menos por intuição e mais por tua enorme visão, fomos à casa do Israelense. Batemos inutilmente na porta. Como dito, além do terrorista sem face, corríamos contra o imemorial tempo. Por minha iniciativa, arrombamos novamente a porta, com protestos do Reitor. Arrombar uma porta sem ordem judicial seria terrível para ele. Ainda mais se tua conclusão fosse falsa. Ainda mais se outra morte ocorresse. Por um momento, Don Isidro, não pude deixar de imaginar o pior: que todos nós fossemos condenados por permitir esses grotescos acontecimentos no campus da universidade. Eu, ainda mais, seria condenado por negligência e, provavelmente, veria muitos dias nascerem dentro de uma cela, parecida com a cela 173. Mas estes pensamentos duraram um átimo, que durou a preparação da polícia para arrombar a porta: o procedimento foi padrão, clichê. O estampido, os muitos policiais entrando, o silêncio e, de repente, os gritos, a balbúrdia. Entrei após e tive a mesma surpresa dos policiais, e que agora relato; três eram os objetos centrais, do crime que estaria por acontecer: primeiro, o Italiano, vestido com as vestes e aparatos da Igreja, totalmente fora de si, praguejando em latim preces de exorcismo antigas, mas imobilizado pelo corpo de polícia. Segundo, o israelense, amarrado em uma cadeira, pronto para seu sacrifício final, nu por completo, se não fosse um detalhe: uma coroa de espinhos que circundava sua cabeça. Terceiro, e mais impressionante; a cruz, erigida, imponente e altiva, em que se lia a eterna inscrição: Este é o rei dos judeus.

Para um lunático que prega através de mortes e não por livros, sua melhor punição não é a prisão, a morte ou as torturas, mas sim o anonimato, julgamos. Se permitíssemos que a imprensa tomasse notas e entrevistas irrestritamente, o nosso pregador cumpriria sua missão. Todos o conheceriam, mesmo que não tivesse levado a cabo o seu plano. Seria lunático para alguns, é certo, mas visionário para os tolos, que infelizmente sempre existem. Seria motivo de piada para alguns, mas também perigosamente profético para outros. Por isso, todos nós, incluída a polícia e os demais alunos que participaram do curso, fizemos um pacto: nunca afirmaríamos o que verdadeiramente ocorreu no curso de História do Falso da Universidade de Bologna. Por obvio, faço exceção a você, que desde o inicio sabia da tão buscada verdade. Também, como suspeitávamos já, não pudemos evitar o assédio da imprensa. Algumas notas sobre o caso vazaram e percorreram jornais de menor credibilidade. Creio que a não confirmação serviu para amenizar o impacto que uma notícia dessas teria para a comunidade científica global.
Disse em minha primeira carta que, por minha boca, todos conheceriam a argúcia e sapiência de Don Isidro. Mas minha promessa ficou restrita com o pacto de silêncio que também prometi cumprir. Mas sou um homem de palavra, Don Isidro e, se não posso dizer a todos sobre suas virtudes, escrevê-las-ei, com parábolas e nomes falsos. Homenagearei você, Don Isidro, da forma que merece. Um livro, um mistério policial, em torno da utilização do riso e da catarse, para a propagação da fé. Imaginei um mosteiro, quiçá um mosteiro medieval, enegrecida por sombras e pela onipotência de uma Igreja que doutrinava pela tristeza, pela miséria e pela indulgencia de seus fieis. Um crime em um mosteiro, um Dupin medieval, um inimigo oculto, certamente farei isso em tua homenagem. Mas um homem são todos os homens, como você mesmo disse, Don Isidro. E, também, como já escreveu, de certa forma o covarde Moon também foi Shakespeare, da mesma forma que nosso Israelense teve seu dia de Jesus Cristo. Por isso, me parece que a maneira mais correta não é te homenagear como o detetive que consegue, através do raciocínio, descobrir a verdade, mas sim, colocar-te na pele do lobo, que é o assassino.

Atenciosamente e sempre seu, Umberto Eco.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Tiferet




Dias atrás fui solicitado para uma entrevista. Nas minhas atuais condições, normalmente dispenso educadamente o entrevistador e, se insistir, digo para reproduzir em seu jornal qualquer coisa de qualquer biografia minha. Mas confesso que o editor do jornal dessa vez foi inteligente. Quando a campainha tocou em minha casa, não imaginei o que se seguiria. “O Senhor pode me conceder cinco minutinhos para uma reportagem do nosso jornal?” disse-me, mostrando a credencial entre a mãozinha fina, deixando entrever um pouco dos dedos sem tintas e roídos. O instinto quase me fez dizer a máxima já dita, que sempre utilizo para afastar jornalistas. Mas um outro instinto foi mais forte e disse, “Sim, é claro”, ao ver a jornalista com cara de menina, óculos na cara, olhos redondos e vivos cor de caramelo, lábios grossos, camisa social branca séria, com dois botões desabotoados não tão sérios assim. “Quanto anos tem, filhinha” a inevitável pergunta. “Vinte anos, respondeu”. Sou estagiária do jornal. Implorei para tentar essa entrevista porque amo os livros do senhor. Sou sua maior fã. Até nervosa estou...” disse mostrando as mãozinhas suadas. “Sei” respondi, e dentro de mim reconhecendo a astucia do editor.
A entrevista se iniciou e seguiu com as mesmas perguntas que respondo há décadas. Em determinado momento, ela me perguntou: “O Senhor acompanha o cinema, acompanha filmes atuais, filmes de moda de Hollywood?” Respondi que sim e ela logo perguntou o que achava da série Crepúsculo. “Gosta de vampiros?” Perguntou-me, por fim, com a caneta entre os lábios grossos, que insistiam em um sorriso malicioso que talvez só fosse fruto de minha imaginação. “De vampiros, gosto sim. De viados, não. Por isso, não gosto de Crepúsculo. Ela indignou-se ou fingiu indignação. Perguntou-me o porquê. Respondi sincero que podiam filmar, brincar e insultar com qualquer coisa, mas que vampiro é coisa séria. Que vampiro, o verdadeiro vampiro, é um sujeito elegante, um bom vivant por natureza, que bebe sangue como que degusta um bom vinho. Que tem em sua natureza o charme, a tradição, a beleza de serem vampiros. Respondi que podiam fazer draminhas adolescentes com bruxos, com elfos, com o que quisessem. Mas que vampiros são uma coisa séria. Por fim, disse que havia conhecido um vampiro. Ela arregalou os olhinhos caramelizados atrás da lente dos óculos e indagou como uma criança: “Jura?” Jurei. E contei a história verdadeira, que me ocorreu algumas décadas pretéritas...
Fui convidado para uma festival literário no Brasil, exatamente na cidade de Curitiba. O tema fascinava e ainda fascina: “Cronologia e Marcos da literatura erótica e maldita no Brasil”. Por isso, decidi aceitar, e já no Brasil lembro de um dialogo com um dos idealizadores do Congresso, que dizia que, inicialmente, o evento seria realizado em São Paulo, mas por motivos de força maior, foi transferido para Curitiba. “Força maior?” Indaguei. Ele apenas me respondeu. “O senhor será uma das grandes atrações deste evento. Mas não é nossa estrela maior. Ela é o motivo de estarmos em Curitiba.” Não foi difícil descobrir a “estrela maior” e, conseqüentemente, o motivo de o
Congresso ser realizado em Curitiba, a bela capital do estado do Paraná. A estrela tinha nome, sobrenome e uma alcunha poderosa: Dalton Trevisan. Todos comentavam pelos corredores a proeza dos organizadores do Congresso: haviam conseguido uma palestra com o próprio Vampiro, que concedeu a honra mediante alguns requisitos, como ausência de filmagens, vinte minutos apenas de palestra, sem direito a perguntas ou indagações e, o principal, que o Congresso fosse realizado em sua cidade Natal, de preferência em local que ele pudesse ir a pé.
O Vampiro: O recluso escritor, de linhas eróticas e amaldiçoadas; a pessoa escondida atrás dos livros, atrás das lendas, atrás dos boatos de pessoas que afirmavam estar em seu cotidiano; a pessoa impublicável, intratável, irreconciliável. O escritor de letras, não de imagens, de palavras escritas e não palavras ditas, de histórias criadas por ele e não histórias protagonizadas por ele. O escritor par excellence, o escritor, em tempo integral, das pessoas, do cotidiano, das estações mal delineadas da Curitiba facetaria, escura, sombria, das noites sulfúreas e insones.
Confesso que, até então, em meu país, não havia escutado nada sobre o Vampiro de Curitiba e, por isso, ouvir suas lendas e saber que veria uma aparição pública sua me deixara extasiado.
Não posso deixar de confessar que sua aparição me foi um pouco decepcionante. Esperava um homem forte, sinistro e recluso. Pareceu-me um senhor de meia idade, encabulado com os aplausos, fortemente envergonhado. O Vampiro disse um pouco de sua obra, um pouco de suas preferências literárias; nada imortal, nada digno de recordação. Minha palestra também foi medíocre, e hoje mesmo me esforçando não consigo recordar sobre o que disse. Mais palestrantes. Mais monotonias. E a única coisa que me recordo da infausta noite foi seu término, as cadeiras já vazias, o cumprimento mentiroso dos organizadores e bajuladores de plantão, nós ao lado, na coxia, conversando amenidades. Foi quando o Vampiro disse. “Isso aqui é tudo balela. Por isso não gosto destas babaquices. Só fazem perder tempo. Consigo em uma noite mostrar mais literatura do que em mil palestras dessas.” Não me contive e perguntei como. Ele olhou para mim, para os outros dois conferencistas da noite e disse. “Querem mesmo saber. Terão que vir comigo. A pé, como convém”. Foi difícil fazer com que os organizadores dessem a permissão para a idéia. Eles se sentiam responsáveis e era muito provável que algo acontecesse conosco, perdidos na noite escura curitibana. Ladrões, estupradores, bêbados, como permitir que fossemos a essa aventura? Mas nossas súplicas – minhas, de João Ubaldo Ribeiro e Roberto Bolaño – foram suficientes, bem como o silêncio ensurdecedor do Vampiro. E assim, calado, ele saiu do Teatro Guaira, chamando-nos apenas com seu olhar.
Ao sair, seguindo o Vampiro, entendi a Curitiba, a Curitiba que só é enxergada a noite, com seus bêbados, com suas características peculiares, com suas maldições, com mocinhas de todas as formas passeando de um lado para o outro, oferecendo-se, seus corpos, suas pequenas vidas. Conheci Curitiba, o local perfeito para habitar o Vampiro. Andamos até a Avenida Marechal Floriano Peixoto e entramos em um prostíbulo barato, adornado de pequenos e velhos sofás e uma luz vermelha, que tremeluzia, ao som de boleros antigos e de canções de Caruso. Principalmente, adornava o local algumas mocinhas, que maliciosas teceram comentários afirmando que o tiozinho trouxera mais senhores distintos consigo. Inútil afirmar que com mais mimo fomos tratados, quando descobriram pela nossa fala que éramos estrangeiros, mimo doce de meninas novas, algumas fugidas de casa, outras fugidas da vida, meninas de espartilho, de saias curtas, de roupas de couro, com chicotes, com todos os tipos de adereços. O Anfitrião então se sentou em um dos sofás da casa, chamou com o olhar duas mocinhas que prontamente se aconchegaram aos seus braços e disse: “Isso é literatura. Aqui verão o que mil livros têm pudores de dizer” Sentamos ao seu lado e fomos acompanhados de muitas meninas, que sentaram conosco. Nossa curta estadia com o Vampiro se resume nesta cena: três escritores, calados, tomando vinho barato feitos em uma cidade próxima e encharcados da atmosfera criada pela luz vermelha, escutando histórias fantásticas de prostitutas, guiadas pela batuta do mestre de cerimônia... o Vampiro. As histórias escutadas naquela noite são as histórias que as prostitutas têm a contar em todos os locais, pelos séculos, com limitadas variações. A história do amor entre a prostituta e o cliente. A rejeição deste amor. A história do rapaz virgem, que conhece os mistérios do amor com uma prostituta. A história da prostituta que engravida, da que nunca saberá o rosto do genitor da criança, ou da que sabe, da que casa com seu cliente, mas não abandona o ofício, o dom que lhe foi destinado. A eterna história que se compra o corpo, não a alma. Que se compra um cu, mas não um coração. Que se pode bater, falar palavrões, mas não se pode beijar – porque o beijo é intimo demais pra ser comprado. Embriagados todos de vinho, nós quatro rimos e choramos das comédias a tragédias que nos foram ditas e que tantas vezes foram vividas, em tantos locais, em tantos tempos... E, já bêbados, fomos mais uma vez inquiridos pelo Vampiro, dono da noite, dono da situação. “Isso é literatura. A literatura que não pode ser contada, que não pode ser escrita, por que os leitores, por que os editores, são pudicos, tem vergonhas, famílias, por que as mulheres não podem aceitar que seus maridos mintam que vão trabalhar e venham para esse sagrado local em busca de sexo e prazer. O mundo não pode escutar nossas verdadeiras palavras, a verdadeira literatura, porque eles não querem escutar, porque nada disso é conveniente a eles. A verdadeira literatura se resume a isso: um pau, uma vagina, a penetração, o cortejo, a busca do melhor macho, a eleição da fêmea com as melhores características. Todo o resto é penacho de enfeite. O verdadeiro, o único protagonista da literatura, sem rodeios, é um pau, doido para foder. E, ao contrario de vocês, eu faço essa literatura. Eu consigo dizer minhas palavras, e consigo achar leitores, que não tem vergonhas, que não tem modos pudicos.”
Assim o Vampiro nos iniciou em assuntos particulares seus. Escrevia ele roteiros de filmes pornôs, que, por sorte, eram filmados em uma pequena produtora de filmes B do estado. A principio, mesmo embriagado, duvidei da veracidade: correr o risco de escrever roteiros pornôs, que não se sabia se seriam filmados ou não, em troca de um dinheiro irrisório, para um publico quase inexistente...
Mas o Vampiro continuou: “O dinheiro não importa. Recebo-o porquê faz parte da regra do jogo. Vendo meu produto, eles compram. Se filmarão, dependerá dos recursos deles, da disponibilidade de atores, de atrizes, de câmeras... o que importa é que fiz minha parte. Escrevi um pouco da história do mundo. A história sem rodeios. A história de todos nós, a história que querem seja proibida. A história do pecado original, contada, recontada, a exaustão, com todas as variantes possíveis. Se alguém assistir, mesmo que não perceba a história, mesmo que só se interesse pelo sexo, já terei minha missão cumprida, porque a história foi passada adiante; porque, enfim, a literatura venceu e não foi censurada por todos os censores da Terra.
Embriagados, juramos fidelidade ao Vampiro. Embriagados, sob o olhar penetrante das putas, pactuamos que reescreveríamos um pouco da História da Humanidade de maneira original, sem cortes, sem amenidades, sem nada. Assim criamos a Sociedade dos Vampiros Literatos, que tinha como fundador e presidente o Vampiro em pessoa. Com o tempo, com a sobriedade, a idéia criou força e com ela vieram estatutos, códigos pessoais e normas de conduta.
Os principais regramentos eram: anonimato absoluto; em nenhuma hipótese, poderíamos citar em nossos livros qualquer coisa relacionada com os roteiros que criávamos. E também, nos filmes, não poderíamos citar nada que pudesse relembrar nossas obras; os roteiros deveriam reproduzir fatos importantes ou preocupações literárias nossas, sem pudores, envolvendo grandiosas cenas de sexo.
Assim criamos nomes, graus de hierarquia, nossa própria Sociedade Secreta. Criamos cadeiras, a molde de academias literárias, em que éramos os fundadores e que devíamos passar o legado. Cada cadeira tinha seu patrono: a minha, numero três, tinha como patrono Nabokov. A do Vampiro, Cadeira um, patrono Decameron. Cadeira dois, João Ubaldo Ribeiro, patrono Alvarez de Azevedo. Cadeira Quatro, Bolaño, patrono Sade.
E distantes, cada qual em seu país, cada qual com sua preocupação, fazíamos reuniões e conferências por cartas, por telegramas e, principalmente, regozijávamos com os roteiros feitos pelos outros. E pouco a pouco, criamos outra forma de escrever, outras preferências, outra identidade literária, conhecida somente por nós quatro e pelo discreto dono da Produtora de filmes, que nos pagava com poucos cruzeiros, e que era mais aceito pela honra do que pela necessidade. Aos poucos, fomos conhecendo nossas preferências, nossas formas de retratar coisas que desconhecíamos, que tínhamos somente em nosso interior e que não ousávamos sequer imaginar... Ubaldo Ribeiro, o outro brasileiro, deixou-se seduzir pelos filmes, pelos livros já criados, e que, segundo o Vampiro, não foram criados de forma plena porque passaram pela censura do sexo. Assim criou roteiros utilizando filmes, livros, com seus personagens conhecidos, com suas histórias já famosas, reescritas sem cortes, reescritas com a incursão do personagem principal, o membro fálico masculino, que tudo faz em busca do coito. Reescreveu A Doce Vida, O Poderoso Chefão, 2001, Doutor Jivago e Cidadão Kane, com uma mistura de Sade e Freud, sempre com grandiosos espaços para as cenas de sexo.
Bolaño preferiu fatos conhecidos, notórios, escritos pela própria História, e agora reescritos à maneira nossa, os Vampiros. Um dos seus melhores roteiros foi a história do pecado original, do Adão e Eva a Serpente e o Paraíso. O produtor fez uma pequena intercessão, proibindo a inclusão de Deus como personagem, pois assim perderia boa parte dos seus poucos expectadores. Consentiu em fazer da serpente um personagem real, que era um anãozinho brasileiro, negro e coxo, mas excelente em tomadas de sexo, sua própria visão do capeta – e desse fato dei boas risadas e pude concluir pelo espírito literário do nosso amigo produtor. Reescreveu a Odisséia, com um Ulisses corno retornando para casa e vendo sua Penélope fodendo com toda população grega e a ainda a Revolução Francesa, tendo como motivo a busca dos franceses pelo fim da recriminação sexual do país (liberté) e a maior quantidade de cópula no cotidiano dos franceses (fraternité).
Eu procurei as crônicas, as fábulas (sem animais), os aforismos e o simbolismo das alegorias. Ao contrário dos outros, não reescrevi histórias conhecidas, mas sim escrevi cenas de sexo em que criei significados simbólicos, quase sempre invisíveis. Sinto-me frustrado porque as duas cenas mais geniais que criei nunca foram filmadas. A primeira é a de um coito em Machu Picchu. Ela, índia, de quatro, nua, gritando, em quéchua, e por isso não se sabe se gritando de dor ou prazer; ele, espanhol, vestido com as armas reais e armado até os dentes, urrando palavras de ordem, batendo-a, fornicando como animais, somente os dois na vista linda das alturas de Machu Picchu. E gozando, ao mesmo tempo que grita, tira seu pau e olha solenemente para a cidade perdida inca, enquanto sua parceira não fala, não desaprova e nem se mexe. O primeiro significado é facilmente compreensível. O domínio espanhol, as privações dos americanos, a profanação de um local sagrado, o fato intertemporal de que uns nasceram pra foder e outros nasceram pra ser fodidos. O segundo significado talvez foi somente compreendido por mim e é extensão do primeiro significado. O espanhol, armado, vestido, somente com sua arma de fora, goza e a tira de dentro de sua parceira. Grita um grito que ecoa em Machu Picchu e, em poucos segundos, sua piroca enorme que ainda goteja vai se apequenando e acabrunhando pra baixo. Enquanto isso, silenciosa, de quatro, permanece a fêmea, da mesma maneira que permanece a cidade sagrada, com suas ruínas, com seus diques, com suas construções sagradas que nenhum europeu poderá se apoderar. Somente eu e os outros três Vampiros entendemos que, mesmo cruel e sanguinolento, o Império sempre se desfaz, se acabrunha, enquanto silenciosa permanece a vitória, como um monte de terra, como um pedaço de seio, um corpo feminino, instituições sagradas, que se pode ocupar, mas não se pode obter. A cena nunca foi filmada por motivos óbvios: a locação da cena nunca seria cedida para estes fins; nunca conseguiríamos o parque nacional de Machu Picchu, nas alturas do Peru, para ser filmado um tosco filme pornô.
A segunda idéia é a de um jovem de qualquer país miserável da América, que vá para a Europa em busca de uma melhor vida. E em sua nova vida, é contratado e, no ambiente de trabalho, seduz a chefe, uma italiana – ou sueca, ou alemã, ou inglesa – loira e linda. Levado para sua casa, que é ampla e suntuosa, ela se mostra, não como no trabalho, local que tem a função de comandar, mas seu eu verdadeiro, submisso, querendo que ele a controle, que fique por cima, que mande e obrigue-a na cama. E, então, o inesperado acontece: ele brocha. E, diante da cena, ela de quatro, sussurrando uma musica francesa conhecida, pedindo para ser possuída, ele fica possuído de ódio porque está impotente e começa a bater nela e inicia a quebrar todos os móveis da casa. A cena representa o anseio impossível do colonizado dominar o colonizador e, mais: mostra o maior medo do macho latino americano: pode-se retirar sua liberdade, sua história, seus antepassados, sua cultura. Mas que não retire sua potencia, que é seu maior atestado de existência, seu membro rígido, firme, doido pra sair da calça. Também não filmaram este roteiro por motivos óbvios: um filme pornô em que o ator principal brocha seria inevitavelmente um verdadeiro fracasso.
Já o Vampiro, o original, justamente por sua alcunha, transitava em todos os gêneros descritos; conseguia, pela experiência, pela forma de vida, dizer destas coisas, comuns, banais, porém com significados enormes, de maneira que nunca conseguiríamos. Seus roteiros são verdadeiras obras de arte e os filmes que se originaram dos roteiros são em média bons, embora ninguém prestasse atenção na história, a não ser nas depravadas cenas de sexo.
Essa foi a história que contei para a pequena jornalista, a história que se findou com a morte de Bolaño e que, desde então, deixou os Vampiros Literatos mudos e com uma cadeira em busca de seu sucessor. Contei-a com detalhes, com toda sordidez, com todas as nuances dos filmes, das cenas, do sexo em si. A mocinha recostava na cadeira, voltava a posição original, encabulava-se quando a conversa apertava, e muitas vezes passou um lencinho com sua mãozinha pequena e seus dedos roídos pela face, ruborizada e suada. Percebeu quando eu olhei para seus seios, que queriam escapar da blusinha branca, aberta de propósito, certamente uma instrução de seu chefe. Na primeira vez que percebeu, cobriu discretamente com a face de sua mãozinha, que mal podia esconder o pedaço redondo de seio que teimava em aparecer; e não tão discreta ficou vermelha, inteira, enquanto eu a examinava e falava safadices, coisas de um velho tarado. Aos poucos, parou de se cobrir e me pareceu que, enquanto eu falava, enquanto eu descrevia todas as imagens de sexo previstas no Kama Sutra, ela relaxou, deixou de se cobrir, aos poucos mesmo foi deixando se ver, quase abrindo o terceiro botão de sua linda e delicada blusinha branca.
Conclui a entrevista, ela me olhou com o mesmo sorriso provocante do inicio da entrevista, a caneta entre os lábios grossos, o olhar vivo caramelo atrás do fetiche que eram aqueles óculos. “Isso é tudo, filhinha. Pode contar no seu jornal o que bem entender. Só não sei se seus leitores terão estomago pra tudo isso”. Ela me respondeu que não contaria, que ninguém daria créditos a sua reportagem e que muito provavelmente seria despedida por justa causa. Eu assenti que sim e conclui com as mesmas palavras que um dia escutei do Vampiro: “Esta é uma história verdadeira. Mas não deixa de ser história. A verdadeira literatura é outra, que não posso contar nem falando por sete dias, mas que, em uma hora, nós três nessa sala podemos descobrir”.
Mais uma vez ela se assustou. “Como assim, nós três? Só estamos aqui eu e você, Gabriel Garcia Marques, nessa sala.”
Puxei ela junto a meu corpo e rapidamente tirei do meu bolso a resposta. “Eu. Você. E essa maravilha chamada Viagra”.




Pós-escrito.

Se há algum fato que possa juntar a colcha de retalhos de identidades da América Latina, é justamente o sexo e a importância do ato sexual na mente do tal “macho latino-americano”.
Velado ou não, o sexo e o erotismo estão presentes na literatura de nosso continente, sempre de maneira provocante. Os quatro da história são exemplos do que digo: Bolano criou o excelente Putas Assassinas e, no mesmo livro, há o magistral conto “Prefiguração de Lalo Cura” em que o protagonista é filho de uma prostituta atriz de filmes pornográficos.
O brasileiro João Ubaldo Ribeiro escreveu o livro da Luxúria da coleção Plenos Pecados, “A Casa dos Budas Ditosos”, que foi considerado pornográfico e proibido em Portugal.
E Dalton Trevisan, o grande Vampiro de Curitiba, por sua vez, é talvez o maior mestre da literatura erótica em nosso país e ainda cultiva as mesmas características de solidão e vida reclusa.
O colombiano Gabo, na maioria de seus livros, escreve sobre a representação desse macho latino americano que se importa acima de tudo com seu desempenho sexual. Cem Anos de Solidão, Amor nos tempos do Cólera e Memória de minhas Putas tristes são ótimos exemplos, que não me deixam mentir, todos com imagens claras e clássicas do sexo, sem nenhum pudor.

Colonizados, latinos, amantes: se somos tão diferentes em nosso vasto continente, na literatura, nos costumes, no futebol, deixemo-nos ser guiados pelas nossas semelhanças, que ao menos na literatura são verdadeiras e que, principalmente, são muito belas.


No fundo era tudo sexo. A arte era só uma tentativa para mudar de assunto. Toda literatura épica era a exaltação velada do pênis erecto. Depois do herói fálico vinha a impotência e a literatura da impotência. Toda a arte discursiva era sobre as aventuras do nosso personagem preferido, o Ricardão. De pé e invencível, encurvado pela dúvida e o autoconhecimento (toda a literatura depois do século XIX) ou prostrado pelo mundo moderno, com a cabecinha cheia de idéias confusas em vez de sangue e ímpeto. O sucesso da literatura escapista de super-heróis e bandidos lúbricos era que ela restabelecia o ideal da erecção eterna. Eu tratava, pois, do único grande assunto do homem, sem as metáforas e a dissimulação. O drama da ejaculação precoce. A tragédia da contrição vaginal. A comédia do orgasmo simulado. E até as grandes questões filosóficas. Não se haverá vida depois da morte mas: será que se consegue mulher?
Luis Fernando Veríssimo. A Terra Arida. Sexo na Cabeça

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Nezah

Há coisa mais clichê que botar a culpa nos livros para os nossos próprios erros? Seu Juiz, matei, mas a culpa é do Apanhador no Campo de Centeio. Ah, amorzinho. Se a Madame Bovary pode, porque eu não? Tô te falando, cara. A onda é largar o emprego, praticar magia, conhecer Machu Pichu e o Caminho de Santiago, que nem o Paulo Coelho...
Pois não é que dia desses, quando eu saia de casa, fui abordado por três sujeitos. O primeiro, um homenzinho carrancudo, cabelos grandes e encaracolados, nariz grande, adunco, disse:
- Por sua culpa, nossa Sociedade Secreta entrou em declínio.
Loucos sempre existem. Aconteceu com o John Lennon. Aconteceu com o Papa. Era a minha vez?
Os outros dois apenas observavam, um gordo com terno amarrotado e um careca, com óculos escuros, estilo aviador, os três com chapeuzinhos pequenos, engraçados.
- Ahn?
- A maldita história do Fugu. O peixe assassino. Você expôs o lema de nossa ordem. Deve arcar com as conseqüências disso.
Respondi que não conhecia a sociedade deles. Imediatamente, fui instruído pelo gordo – eram os Hasidim, Nequaquam, Hermeneutas ou outro nome engraçado, que agora não me recordo. Foi logo repreendido pelo homenzinho, que olhou severamente para o gordo e proferiu:
- Pregamos, dentre outra coisas, a salvação da alma pela mortificação do corpo. E maltratamos nossos cinco sentidos, com a esperança da salvação eterna.
-Que mais pregam? Perguntei curioso.
- A monarquia celestial Farroupilha e a santificação pela ingestão de alcachofras... mas isso não vem ao caso. O que importa é que deve você pagar as conseqüências.
-Até posso arcar com as conseqüências, mas me expliquem a causa, para que eu possa entender...
- Ora, não está claro? Você escreveu sobre uma sociedade que morre sempre na mesa, após comer. O fugu também é nosso símbolo, o veneno, a morte gradual, resultado da utilização de um dos nossos cinco sentidos... com paródias, você utilizou nossa Sociedade.
Não ousei discutir com o homenzinho e dizer que a História do Fugu era justamente oposta: a de pessoas que comiam com a probabilidade de que o peixe – se não bem cortado – estivesse envenenado. E que tal probabilidade transformava a degustação em uma experiência única... e deliciosa. A satisfação plena de um dos sentidos.
-Tudo bem. Qual é a conseqüência que devo pagar?
-Será seqüestrado por nós. Deverá percorrer o mesmo caminho que percorremos, para que se arrependa e para que também salve essa alma pecaminosa.
Argumentei que estava em dia com o dízimo e com os carnes de sócio Torcedor do Inter. Disse que tinha remédios pra tomar, que era comunista e que era alérgico a alcachofras. Como podem imaginar, não deu certo. Após as negativas do homenzinho, o gordo me sorriu, piscou um olho e disse, para meu total desespero, que eram mais ortodoxos que reclame de xarope. Loucos, pensei. Finalmente, chegou a minha hora...


***

- Deve passar pelas provas que também passamos. A total mortificação dos sentidos. Um a um. Deve maltratá-los, de forma que sinta a paz interior, a paz que só se consegue ao desprezar o corpo.
-E como começamos?
O primeiro dos sentidos que deve desprezar é o olfato. Deves buscar na sua mente aquilo que o teu nariz mais repudia. É, obviamente, uma escolha personalíssima. Eu passei um dia em um quarto com carne podre. Eles – apontando ao careca e ao gordo – escolheram um lixão aqui da cidade e óleo de rícino.
-Sim, sim. Pois eu tive um trauma na minha infância. Fui obrigado a comer um prato, por muitos anos e não suporto o seu cheiro.
- Ora, pois. Mostre o prato que compartilharemos da tua aflição.
Levei-os a um restaurante sofisticado e conhecido de Porto Alegre. Com o cardápio em mãos, titubeei um pouco com o Fusili fresco com cherne. Mas, triunfante, pedi o famigerado Taglioloni ao cioccolatto.
-Alias – disse ao garçom – se possível, queremos observar o maitre fazer o prato.
E piscando condescendente para os três, justifiquei que assim a tortura seria maior.
Palavras são apenas palavras para justificar a sinestesia do Tagliolini. Os elementos todos à nossa frente, primários, combinados, amalgamados, mais seus cheiros, suas cores, suas texturas. A massa primária, a farinha, misturada com o chocolate suíço derretido em banho Maria, as formas delicadas da feitura do Tagliolini, a manteiga Aviação na cenoura e no salsão.
Quando misturados com a carne de javali em cubos e o buquê aromático, senti o gordo soltar um gemido baixo. O maitre, indiferente a minha recém adesão à seita, juntou o vinho Cabernet, deixando-o evaporar, cozinhou por um bom tempo, adicionou cuidadosamente o caldo de carne e o sal e a pimenta. Separadamente, cozinhou na mesma manteiga cogumelos, juntando-os com a carne de javali. Por fim, cozinhou bem a massa, o tagliolini escuro e cheiroso, e a despejou no molho fervente, acrescentando avelãs e queijo parmesão. Aquilo que um dia eu imaginara escrever em alguma coluna como o Yin e o Yang, a combinação sublime entre o salgado e o doce, o carboidrato e a proteína, o branco-dourado do parmesão e o escuro-amarronzado do chocolate inserido na massa, o leve, porém agressivo tom da pimenta de mãos dadas com a aristocrática avelã, o aroma rústico e pesado do javali em contraste com o suave Cabernet. Olhei para o lado e imaginei que meu amigo gordo tinha pensamentos mais libidinosos que o meu. Bingo! Ninguém é gordo por comer alcachofras...
Todos nós perplexos, diante de nós o ensoph, o absoluto dos cabalistas, o pequeno milagre, O homenzinho pequeno e enfezado incapaz de decifrá-lo e o gordo, muito capaz de devorá-lo. Diplomático, senti que devia intervir, antes de criar uma dissidência, uma divisão na seita que acabara de entrar...
- É possível eu matar dois coelhos com uma tacada só. Não suporto o cheiro e o paladar disso. Posso comer tudo e, assim, ganhamos mais tempo.
-Eu... eu também acho que não suporto o paladar desse prato. Posso comer com ele? Perguntou o gordo ao homenzinho, como um filho que pede um sorvete antes de jantar para a mãe.
- Cale-se. A prova é dele e não sua, respondeu o homenzinho, como uma mãe que nega o sorvete.



***


- Deves agora maltratar a visão. O que mais aflige seus olhos? Respondi-lhes sinceramente que o que me afligia há muito tempo era a visão do Último tango em Paris. E, com eles, vi Paul e Jeanne, se entregando um ao outro, de todas as formas, de todos os jeitos, sem conhecimento de suas procedências e seus nomes, face a face imitando de maneira gutural o som dos primatas ou a Jeanne dizendo que não necessitava dele e se masturbando na cama...
Estavam perplexos, excitados, quase acabados. A genial interpretação de Marlon Brando sem querer foi a responsável por uma crise em uma seita de loucos. Porém, faltava o golpe final, a tacada de mestre, a rolada do Pelé para Carlos Alberto.
- Agora mostrarei minha maior aflição, aquilo que todas as noites me angustia. E é justamente a prova que falta para que eu seja aceito: o tato.
Não conseguiria meu objetivo sem o Google. Santo Google. Junto com o ar condicionado e as calças de ginástica, as três maiores invenções do século passado. Bendito Google. Nosso oráculo, nossa enciclopédia. Google, que Borges – sempre ele – conhecia e que, por erro, denominou-o como Aleph (não é, meu caro Millor?). Google, o ponto que contém todos os pontos do universo, o milagre de acharmos que se pode ter tudo ao alcance de nossas mãos, ou de um clique.
- Meu último pavor não é de ser tocado. Na verdade, nunca a conheci. Mas conheço algo que vai dar a imaginação do que eu sinto.
E digitei as palavras mágicas, as palavras que me levariam para a salvação, o três dáblios, o ponto que tudo contém, a opção por procurar por imagens.
Procurei por um nome, um nome que, provavelmente, eles já conheciam, como eu.
- Para entender o que eu sinto, é necessário um exercício imaginativo, porque meu terror é apenas mental; é impossível que um dia se concretize. É importante que vocês olhem as imagens do Google imaginando um texto que lerei pra vocês, que escrevi um dia desses. Assim conseguirão sentir o tamanho do meu tormento.
E assim li o que se segue:
“ Dia desses, coisa de repórter que não tem pergunta pra fazer, perguntaram-me o que eu achava do Paraíso. Respondi que a única visão do Paraíso que eu tenho é a de que o paraíso é uma grande nuvem branca, com rios límpidos e puros, com pássaros piando sons ternos, com videiras, amoreiras, pessegueiros e, principalmente, com Yelena Isinbayeva. Digo mais, se me é permitido um pedido, uma graça concedida por Deus, uma só, não quero imortalidade, fama, sucesso, nada de nada. Só quero, quando morrer, ser acordado no paraíso pela Yelena Isinbayeva. Nada mais, tesouros, imortalidade, fama, o escambau. Trocaria tudo pra ter a Isinbayeva me acordando com sua voz suave e me tocando, como quem toca a vara que lhe dará o centésimo vigésimo terceiro recorde mundial no salto com vara. Salvo engano, estamos nós dois nus, porque estamos no paraíso, e creio que o contrato vitalício com as roupas da Nike da Isinbayeva não valem no paraíso. E depois de me acordar, ela, em seu colo macio, me preparará um combinado de Stolichnaya original, pedaços de gelo celestial e uvas do paraíso, colhidas por ela mesma, enquanto treinava seus saltos. E enquanto eu sorvia lentamente a bebida, sob a relva verde e macia, olhando pra seus olhos, que me mostravam ao fundo, enquanto eu tomava o insuspeito néctar dos deuses, Isinbayeva lia, em russo mesmo, a parte que Raskolnicov mata a pauladas a velha do Crime e Castigo. E, de minha fronte, lágrimas escorriam, misturando-se ao leito de um rio límpido e tranqüilo. E quanto mais ela lia, mais de minha fronte insistia em derramar lágrimas para o límpido rio. Porque só eu sei o quanto é lindo, deitado nas coxas firmes da Isinbayeva, escutar ela ler Crime e Castigo em russo, língua estranhíssima. E é lindo, simples e unicamente, porque é a Isinbayeva, por que se ela estivesse cantarolando qualquer jingle dos carros Lada, eu choraria da mesma forma. E quando eu me cansava de escutar aquela melodia celestial, ela me virava de costas e fazia massagens em toda a minhas costas, enquanto todos os outros anjos se invejavam da beleza completa daquela insuspeita deusa...”
Creio ter parado por aí, enquanto os três olhavam sem piscar todas as imagens da Isinbayeva. Estavam embriagados, seduzidos, pelo canto da sereia que emanava de uma tela LCD de 17 polegadas, embebidos pelo par de olhos azuis estonteante da russa. Perfeito, pensei. Nem vou precisar apelar... .
O homenzinho jogou o chapéu no chão, deu um gemido por sua derrota e disse talvez as palavras mais sentidas que já disse em sua vida: Pô, Luis Fernando. Parei contigo.
Virou-se então nos calcanhares pequeninos e saiu, pra nunca mais ser visto.
Os outros dois ameaçaram ir, fizeram menção de também jogarem seus chapéus, de também fingirem nervosismo, mas os olhos azuis na tela do Google foram mais fortes.
- Há mais dessas? Perguntou o gordo.
- Você não viu nada, respondi sinceramente. Espere até eu mostrar a Luana Piovani.
Eles fizeram um ohh de perplexidade e então que arrematei, dono da situação, experiente, ares de Grão Mestre.
- Mas, com a Luana é diferente. Meu sentimento pela Luana é avuncular.
Salvo engano, criaram uma igreja com sede no Rio de Janeiro, em que se auto-intitulam “Avunculares” ou “Avunculianos”. Nunca descobri se há algum nexo de causalidade.

Pós-escrito - Nezah


Ilegal. Imoral. E Engorda... Se pudesse resumir a leitura de Luis Fernando Veríssimo, resumiria assim. Luis Fernando é, embora minha frase soe ambígua, delicioso. Seja em uma crítica artística, seja em um livro sobre a arte da degustação, seja confessando seu amor e suas taras, seja retratando com extrema ironia o homem brasileiro, ler Luis Fernando é simplesmente delicioso. O Analista de Bagé, Mentiras que os Homens contam e Comédias da Vida Privada são excepcionais livros que retratam o cotidiano nosso. O Banquete dos Deuses e, principalmente, o fantástico Clube dos Anjos me deixam com fome. O último trata de uma sociedade de pessoas que busca na experiência sensitiva da degustação da comida uma razão pra viver. E a encontram, em pratos sofisticados e no famigerado Fugu, que não cortado corretamente, emana um veneno mortal. Sexo na Cabeça é um sensacional livro sobre a realidade – e as fantasias – da sexualidade dos brasileiros. E do próprio Luis Fernando, que dedicou alguns dos contos para Luana Piovani – inclusive o sensacional conto em que ele pede a um gênio um livro, um disco e a Luana, para passar o resto dos seus dias em uma ilha deserta, incluindo as posteriores investidas nela... “meu relacionamento com a Luana é avuncular” eu retirei, inclusive, de uma entrevista concedida por Luis Fernando. Também retirei de um dos seus contos o fato dele tripudiar a palavra “Hermeneutas”. Também não é de minha autoria a frase que retirei, do mesmo conto do gênio, em que a Luana Piovani lhe diz sincera, no final: “Pô, Luis Fernando”

E, só para constar, esse conto é dedicado a William George Figueroa.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Chokmah

Coisa engraçada, a memória, este impalpável e inumerável objeto que detemos, que utilizamos tanto quanto a própria respiração, que tal como esta é vital para nossa existência, e que, talvez por ironia, quase nunca lembramos de agradecê-la, de saudá-la, Ó memória, és tu que me lembra da vida, és tu que aponta sempre meus afazeres, és tu, diariamente, que me diz, Acordas, tem de ir trabalhar, tem de ganhar o sustento, o pão, o vinho de cada dia, sem tu não me lembraria de meu nome e do nome das tantas coisas do mundo. Não é objectivo deste trabalho um peremptório ensaio sobre a memória, sobre essa pouco ou nada sei mais que o senso comum, que a memória é, age e influencia por ação ou por omissão em todos nós, diariamente e durante a vida inteira, e essa constatação já me é suficiente, não importa o que concluam os filósofos e os cientistas destinados a estudar tão intrincado problema. Aos que não se aperceberam, repetirei minha sentença, A memória nos é vital, por ação e por omissão, pelas coisas que não nos deixa esquecer, salvo falhas justificáveis, as coisas que marcamos como importantes, como o aniversário da filha mais nova, o nome do cachorro, a idade que tens sua esposa e também pelas coisas que não nos deixa lembrar, assim não nos transformando em um repositório infindável de acontecimentos passados, de pensamentos pretéritos de previsões futuras, de outras lembranças, menos pretéritas, mas ainda assim no pretérito, das frustrações de que o futuro, vivido e relegado ao imutável passado, não foi como o previsto, e de tantas outras chatices inumeráveis, o tom de gravata desbotada de um colega de trabalho, o café fraco de uma tia, o sapato pouco confortável em uma reunião, fatos passados sem que fossem marcados com o crivo de importante, fatos que a memória tratou de separar, o joio do trigo, e assim postergou para o esquecimento. Com desculpas pelo trocadilho, esquecemos que a memória não é importante apenas posictivamente, lembrando coisas, mas também em seu oposto, de forma negativa, esquecendo o irrelevante.
Obviamente, mesmo este admirável e inexplicável instituto humano não é perfeitamente eficaz, objectivamente dizendo, na triagem do que é relevo e do que não é, e talvez não seja perfeito pelo simples fato de pertencer ao homem, que é imperfeito por natureza própria. Desta outra sentença, muitos outros ensaios podiam surgir, a natureza da memória e o porquê de suas falhas, a sua gastura com o tempo, os lapsos sem razões por determinados momentos, a sua reação com situações extremas, de medo e de perigo, os picos, os sonhos, a relação dos sonhos com o que conhecemos, as negligências propositais, os esquecimentos imperdoáveis. Entre essas duas últimas características, quais sejam, de uma justificável negligência e de um esquecimento intolerável, situo o que ocorreu comigo em relação ao caso da terrível e curiosa história de Jesus Alcântara Machado. Agora, com auxilio de glossários, de catálogos sobre o acidente e ainda de factos supervenientes marcados em brasa em mim pela memória, sou capaz de narrar o terrível acidente do empresário, com todas as minúcias, com todos os pormenores, mesmo os detalhes esquecidos por todos, o choro sentido da rapariga mais nova, a viúva em seu luto, em frente à câmera da TV, forçando um choro que dificilmente saiu. O facto é que, quando o acidente se deu, no princípio de 90, ocorreu a comoção geral, natural das tragédias, a catarse própria do instinto humano, pessoas dizendo para elas mesmas, Ai, se fosse meu pai, se fosse minha família nesse acidente, forças a família, mas bênçãos a Deus que isso não ocorreu comigo, etc., o justificável egoísmo misturado com pena na hora da morte alheia, ainda mais quando a morte alheia não é natural, mas antes, fruto de uma fatalidade inesperada, um acidente, um tombo, um enfarto, dando a todos a reacção falsa de que uma morte sem avisos gera mais dor do que a ausência decorrente de uma morte anunciada.
Jesus Alcântara Machado partiu de Lisboa desgostoso de si em Março de 90, disseram todas as línguas, quando entrou no avião monomotor particular, um dos últimos regalos que se permitiu, o avião pequeno, tripulado por ele e seu piloto, com a alcunha Alcântara Machado inscrita sobre a asa, e subiu para o vôo final, o vôo que o levou desta vida. Quando se divulgou na TV o desastre, todos se espantaram, todos se apiedaram, o triste fim de um importante empresário Lisboeta que, como convém às grandes biografias, nasceu sem nada e fez seu império próprio, a custa de seu esforço e de seu labor, no caso específico, um império de bolachinhas doces, com sabor de caramelo e a preços sempre acessíveis. Com esta fórmula, ergueu seu império de caramelo nas décadas de setenta e oitenta, com posses, títulos e honrarias, douto e honrado cidadão Lisboeta, dono de apartamentos, de terras, de reconhecimento e conheceu o princípio do ocaso no fim da década de 80, dizem, pelo fruto precoce da globalização, que introduziu bolachas de todos os países, de todos os sabores e com preços ainda mais acessíveis que as bolachinhas redondas de caramelo de Alcântara Machado. A globalização teve o mesmo efeito que se qualquer totalitarismo tivesse ocupado todo Portugal e assim dissesse, Olha, tuas bolachinhas já não são mais queridas por nós, que agora detemos o poder, e este sabor caramelo, a partir de então, será considerado subversivo ao sistema imposto. E tudo isso porque, pelas vias de facto ou de maneira sutil, o resultado foi o mesmo para Alcântara Machado, foi o de simplesmente a ordem vigente dizer, Não comercializes mais tuas bolachinhas porque não queremos. E o lento ocaso devido às transformações políticas e econômicas se transformou rapidamente no crepúsculo, a já anunciada noite da falência e a conseqüente queda e vergonha de uma das famílias mais emblemáticas da alta sociedade portuguesa, para um limbo pior que o dos pobres, que é o daqueles que foram ricos e tiveram posse e depois volveram à miserabilidade. Obviamente, os comentários, muitos maldosos ou infundados, correram alguns jornais, alguns telenoticiários e muitas bocas, transformando-se, aumentando a desgraça da família e assim foi que chegaram até mim, creio, naqueles tempos, o fim das bolachinhas, a desgraça de Jesus Alcântara Machado, de sua esposa, de seu filho mais velho já iniciado nos decadentes negócios e de duas raparigas impúberes, que não tiveram tempo de usufruir da glória conquistada por seu pai e pelas agora infames bolachas. Mas e as posses, os terrenos, os títulos da dívida pública, todas as aplicações, perguntam-se-lhe todos, mas a família Alcântara Machado não tinha aplicações, simplesmente pelo facto de que acreditavam na eternidade das bolachinhas, que deveriam ser imunes ao tempo e a política e deveriam proporcionar sempre uma vida soberana, mas, como dicto, não o foram, transformaram-se em persona non grata da ordem vigente e as posses todas não foram suficientes para pagar as dívidas, o mau gerenciamento da empresa e ainda todos os direitos trabalhistas dos empregados.
E quando o avião da família rompeu os céus, levava consigo não só o corpo do empresário, mas toda a sua história feita de bolachas, todo esse passado glorioso que acima descrevi e assim que o avião se despedaçou em partes no ar e se quedou, não foi simplesmente o corpo que restou dilacerado; também o estavam toda a honra e glória da família Alcântara Machado. Mas a catarse, como também o é natural, dissipou-se, tão rápido quanto se formou no seio de toda a sociedade portuguesa e, passado um ano, ninguém mais se lembrava do ocorrido e do que acontecera posteriormente aos parentes que continuaram a viver. Confesso que me incluo à lista acima dicta, não tenho o mesmo sobrenome do falecido no acidente, já tenho muitos mortos próprios para me lamentar e, de todo modo, nunca gostei de bolachas de caramelo, e por tudo isso, já passados alguns meses, não me recordava quem fora Jesus Alcântara Machado. Não lembrei quando troçaram dele na reunião do partido, Esse é que se saiu bem, viveu o máximo da vida que pode, com luxúria, com mulheres, com glamour, esbanjou tudo e quando as mesmas pessoas que lhe deram tudo resolveram lhe tirar, saiu dessa vida. Foi logo repreendido, por outro, sujeito novo no partido, inominado, magro, Barbudo, olheiras fundas e escuras, sempre silente, sempre as mesmas camisas puídas, sujas, o odor muitas vezes demonstrando que tinha varado a noite bebendo e muitas outras noites sem conhecer uma ducha, cabelos desgrenhados, dizem, recém chegado a Lisboa, mas insuspeito, já que barbudos são o que mais se vê entrando e saindo no Partido, Não digas isso, irmão, ele foi capitalista, pode ter oprimido pessoas, mas não nos compete julgar, dizer, peremptoriamente que foi aproveitador ou que deixou de viver porque as coisas pioraram. Mas a repreensão em favor de um capitalista, antigo milionário empresário, se não é aceita em condições normais, quiçá vindas de um sujeito que não se sabe o nome, que não se sabe a procedência, sem credenciais no Partido, sem a eloqüência dos antigos coronéis barbudos, E tu companheiro, recriminas-me por denunciar um safado, um corruptor, explorador de muitos trabalhadores, pais de família desesperados, perguntou o antigo coronel, Por acaso queres me dizer que tende a proteger o falecido. Não quero proteger ninguém, respondeu o Barbudo inominado, já sem a calma, já sem o silêncio costumeiro das poucas reuniões que ali comparecera, os olhos injetados, de bebida e da discussão, as mãos um pouco trêmulas, Não posso proteger ninguém, já que não consigo nem mesmo me proteger, apenas acho que acusares um terceiro, que aqui não estás nem pode estar e que não tem defesa, é injusto. O antigo coronel do partido reagiu, já vermelho, já inflamado, porém ensaiado, a discussão acalorada sempre foi afeita aos membros do Partido, cada ambiente tem suas mostras próprias de virilidade e, neste, a eloqüência, a rispidez e a raiva nos discursos são indicadores dos machos que se sobressaem, e disse, Blasfêmia, agora no partido que tanto ajudei durante tantas décadas, que tanto combati, não posso mais sequer citar o nome de um infame rato, que sempre repugnei, que morreu covardemente, Covardemente, retrucou o Barbudo sem nome, como podes dizer que um acidente de avião é morrer de forma covarde. Pelo que eu saiba, respondeu o Coronel, a fábrica que ele sempre manteve estava a beira da falência, Não estava, apenas foi uma crise passageira e, logo após o acidente, a fábrica seguiu o mesmo curso de sempre, reergueu-se, há vários trabalhadores honestos lá, bem tratados, respeitados, com toda a dignidade do labor. Não tente me fazer acreditar nisso, disse o Coronel, Pelo que me contaram, o morto não morreu, suicidou-se, a tragédia não foi uma fatalidade, mas sim um facto premeditado... e nisso parou de falar porque o Barbudo, sem nome, sem história, sempre calado e sempre calmo, presente em poucas reuniões anteriores, grudou na garganta do velho Cacique, ex-presidente do partido, honorável por todas as condecorações, e disse, Velho pilantra, não fales do que não sabe, quem achas que és para julgar uma vida, você que nunca fez nada além de politicagens.
Aos poucos, da surpresa, os demais conseguiram conter a raiva sem horários e sem propósitos daquele que nunca souberam o nome e que nunca saberiam. Inútil ter que acrescentar que foi expulso sumariamente por todos os membros e convidado a nunca mais aparecer naquelas fileiras, para minha tristeza, já que tentei dissuadi-los, tentei fazer, inutilmente, que ao menos dessem chance para que falasse seu nome, sua história e o motivo de sua raiva. Não deixaram e não permitiram que eu fosse atrás, e esse foi o gérmen para que eu pesquisasse profundamente a vida e morte de Jesus Alcântara Machado e que, assim, por este facto, cravasse em minha memória como lembrança a ser guardada, pela peculiaridade e pela estranheza. Peculiar por que, conforme dito, brigas ocorrem freqüentemente no partido, mas, como já dito, são todas previamente ensaiadas, discursadas e politizadas, e nunca dessa forma, já nas vias de facto, e estranha porque nada justificava a raiva do barbudo sem nome, já que, obviamente, em nosso meio, maldizíamos comumente fulano ou beltrano, e uma briga, por um antigo fabricante de bolachas, falecido e esquecido, pareceu-me, não totalmente fora de propósitos, mas sim, de propósitos ocultos, que ali passaram despercebidos por todos, incluindo-me. Com essas premissas e indagações permaneci alguns dias após o incidente, não retornei ao partido por que sabia que ali o assunto estava julgado e sentenciado já, dessa forma, O barbudo sem nome não passou de um espião, que não conteve a ira ao escutar verdades de um dos seus, e não procurei saber nada com os amigos do empresário falecido, por que me pareceu de uma intromissão sem razões. Mas a curiosidade não cedeu e busquei em jornais antigos, em memórias melhores que a minha na biblioteca municipal tudo aquilo relacionado com a vida do morto e tudo o que se passou antes e depois do acidente. Obviamente, descobri o que o senso comum sabia, da terrível tragédia, da história da família, do apogeu e do declínio das bolachinhas sabor caramelo, e do triste fim de Jesus Alcântara Machado, somado com outras proposições, menos verificáveis, mais afeitas ao ideário popular, como a que o Coronel falou no dia do incidente, que o acidente foi combinado, que Jesus se suicidou no momento em que descobriu não ter mais forças para reerguer seu império, entre outras lendas, que não foram suficientes para acalmar minha curiosidade, Porque o barbudo sem nome e sem história defendeu com sua vida a memória do empresário morto, não parava de me questionar. Levado por esta curiosidade, deixei-me andar pelas ruas de Lisboa – nessa época ainda não sofria de represálias nem de muito assédio – atrás de possíveis pistas, que pudessem me mostrar o que realmente ocorreu com o empresário e porque tanta paixão em protegê-lo detinha aquele comunista sem nome. Para certa surpresa, encontrei a fábrica de Bolachinhas de sabor caramelo no local em que deveria estar e esta não estava deteriorada, não estava fantasmagórica e vazia, como convém a todas as fábricas portuguesas que sucumbiram à concorrência do mercado externo, mas estava sim, lá, letreiros grandes e luminosos, intensa movimentação de pessoas e carros, e a chaminé pulsante, indicador maior que a atividade está intensa como outrora, como nos bons tempos de Jesus. O velho Cacique disse que a empresa falira e o Barbudo sem nome que o mau momento havia passado e, nisso, admiti, ao ver o letreiro, a movimentação e a chaminé, tinha razão o Barbudo desconhecido, e talvez essa singela afirmação me deu coragens de entrar na fábrica, de talvez com sorte conversar com a viúva, omitir o acontecido, mentir minhas credenciais, Sou jornalista do jornal tal, espero que não se incomode, estamos realizando uma série de reportagens sobre os perigos aéreos e possíveis prevenções, será que a senhora poderia conceder o relato da morte do seu marido, se não lhe fosse inconveniente. E com esses pensamentos, cruzei o portão central, e me identifiquei na portaria, Quem és, Chamam-me José, sou jornalista, E que aqui queres, saber da qualidade das bolachinhas por acaso, Não, quero apenas conversar com a viúva do Senhor José de Alcântara Machado, o motivo de minha entrevista é justamente o acidente aéreo. O empregado se silenciou, pensou alguns segundos, e ligou para outra pessoa, que chamou a viúva, Olha, Sra. Machado, aqui está um senhor que se diz jornalista e que quer lhe perguntar a respeito do acidente aéreo de seu marido... sim... a senhora está ocupada... e não falas nada sobre o Sr. Jesus, a não ser na presença de teus advogados... certo.
Tenho agora a certeza que uma simples conversa com a viúva, a respeito do acidente e de como, por motivos judiciais e factuais posteriores, a fábrica se reergueu, insuspeitável fênix no coração de Lisboa, me bastaria, mas a peremptória resposta negativa serviu apenas de lenha em minha inquietação, para que eu me desse conta que algum tabu se encontrava certo entre a história oficial e o mito popular. A negativa me deu coragens e forças para tratar do assunto com outras pessoas, uma barreira estava quebrada já que eu tomara coragem de falar com a pessoa mais delicada a se tratar do caso, que sempre é a viúva e o facto de mentir uma vez dizendo-me jornalista justificou as posteriores mentiras, sempre da mesma forma, Olá, sou do jornal tal, sabes alguma coisa da morte de Jesus de Alcântara Machado. E com essa credencial falsa e essa insistente pergunta foi que consegui a identidade do piloto sobrevivente, única testemunha da morte do empresário. Dizem que, como o avião caiu no meio da mata, o piloto apareceu alguns dias depois apenas, em frangalhos, e não se mostrou à imprensa nem para as câmeras, obliterado inteiramente pelo facto de sido ele o sobrevivente e morto o antigo rico e famoso empresário. Com algum custo, e sempre com a bem vinda ajuda do dinheiro para pagar um funcionário subalterno da prefeitura , deparei-me na casa, simples, no Alemtejo, salvo engano habitada pelo piloto, e sua esposa e seus filhos. Ó de casa, fiz a saudação trivial e logo me apareceu na porta uma mulher, robusta e sisuda, Que queres, perguntou-me, Quero conversar com o marido da senhora, disse. Se, por força de linguagem ou de poética, algum dia escrevesse um romance sobre tal caso, dir-lhes-iam que a expressão dela se alterou, lentamente, como a do porteiro quando soube que eu queria perguntar à viúva sobre o falecido. Alterou-se por alguns longos segundos, a expressão talvez de incredulidade ou debilidade, de que pedimos algo impossível, já que é impossível falar com os mortos. Meu marido não está, respondeu secamente ela, Quando ele chega, disse eu também de forma seca, Não chega, não chegarás nunca mais, respondeu-me, fazendo com que eu compreendesse, embora não soubesse os motivos, que eu não conseguiria falar com o piloto do avião abatido, Porque não voltarás, perguntei, Não voltarás porque não voltarás, respondeu-me, Não voltarás, porque me abandonou, Abandonou como, e após alguns segundos de silêncio ela enfim disse, Abandonou, entregou-se a bebida, ao vício, as prostitutas de Lisboa, as causas políticas impossíveis, não voltarás e, mesmo que quisesse, eu não aceitaria, nem eu, nem minhas filhas, órfãs de pai. Pedi desculpas e me despedi da esposa do piloto, um pouco acanhado de, mesmo sem querer, cutucar uma ferida aberta, a de um marido pródigo, que nunca irá se redimir, nunca voltarás e dirás, Desculpe, mulher, errei, mas estou de volta, para teus braços e para educar, como se convém a um pai de família, essas pequenas gajas.
Um pouco atordoado, caminhei a esmo, deixando-me levar por bifurcações e esquinas que não me recordo o nome, por quarteirões esquecidos e por placas que nada me diziam, caminhei ao acaso, apenas pensando em todos os fatos ocorridos nos dias anteriores, um comunista sem nome que sabia e protegia a memória suspeita de um empresário falido, a reserva injustificada da viúva, a resignação e o remorso da outra viúva, qual seja, a do piloto, que perdeu o marido, não para a certeza da morte, mas para a certeza da luxúria que acomete todo homem, mais cedo ou mais tarde e, com estes pensamentos, deparei-me junto a um local propício para se pensar em morte, o cemitério. Porque não, pensei, e assim, adentrei, e perguntei para um funcionário sobre a lápide de Jesus Alcântara Machado, que ficava algumas quadras abaixo. Não tive dificuldades para encontrar a enorme lápide em mármore, com adornos suntuosos em dourado, alguns vasos de crisântemos e cravos, a inscrição de um excerto de um evangelho que agora não me recordo, mas que remete, em seu todo, à volta infalível de Jesus. Porem, mais que a apolíptica frase, assustou-me a foto em preto e branco, insculpida no belo mármore, ao lado dos cravos, o semblante sereno de Jesus Alcântara Machado. Assustou-me não sei por que, e isso foi causa ainda maior de assombro, olhei para a figura, certamente conhecida, certamente das TVs, dos jornais, das fofocas, todas remetidas à fábrica e ao acidente, mas nada disso é aterrorizante. Mas o que pode ser aterrorizante então, questionei-me, tentando recapitular os pensamentos, organizar algum arquivo guardado e esquecido pela memória, o porquê do arrepio diante de coisas elementares, o mármore, a réplica do ouro nas letras e na citação do evangelho, mais embaixo um corpo já decomposto, já devorado pela terra. Jesus morto, a apregoação de sua volta, a sua memória contada por um sem nomes e sem histórias, é possível que isso possa arrepiar algum adulto normal, sem fobias, sem fraquezas de pensamentos, questionei-me mais uma vez, e não pude me responder ali, os olhos duros de Jesus me perscrutando pela lápide. Deixei o cemitério quase correndo, com um medo desconhecido, um medo dos mortos que eu julgava não ter, a imaginação volvendo-se e misturando-se com a memória, com os rostos conhecidos, com os antigos falecidos, todos, como que estivessem prontos para levantar de suas tumbas, não como insurrectos, mas como se, de um dia para o outro, não existisse mais diferenças entre a vida e a morte, entre os que estão aqui e os que estão além. Corri, da forma e pelo tempo que meu corpo permitiu, atravessando tumbas, de crianças, quase bebês ainda, que choravam, não a morte porque não a compreendiam, já que viveram sem saber da existência desta palavra, de jovens, vitimados por acidentes ou doenças, antes de seu tempo natural, adultos, idosos, que amaram longamente a vida e conseguiram cumprir todo o seu curso, e me chamavam já, dizendo-me talvez para não me assustar com o que, dentro de tempos, acabaria por ocorrer em mim também. Corri, calado, fechando os ouvidos para não ouvir tantas vozes da morte, de tantos familiares, amigos, conhecidos e, mesmo dos desconhecidos, porque a voz das tumbas soam iguais, dos amigos e dos desconhecidos, do empresário Jesus de Alcântara Machado, ou de um de seus muitos serviçais. Corri até onde pude, não muito longe, mas já fora da circunscrição dos mortos, assustado pelo facto de, pela primeira vez, os mortos se esquecerem desta sua condição peculiar, que é justamente a ausência daquilo que me move a falar, a pensar e a escrever estas linhas, que é a vida. E, por instinto, deixei o local em que estão nominados todos os mortos e cheguei ao local em que estão demarcados todos os vivos, o Registo Civil, ainda sem esquecer o ocorrido, e lá, pulando as palavras, a ausência de uma explicativa, junto à forte respiração, perguntei ao funcionário que, de forma literal, tem como ofício guardar a vida, com os respectivos factos importantes dessa, como o casamento, o divórcio, a paternidade, e a morte, com as únicas conseqüências palpáveis que advém desta, a herança, a transmissão das dívidas, o testamento, que me mostrasse o registro de Jesus de Alcântara Machado. Este me escutou mecânico, não me reconheceu, não reconheceu certamente o empresário falecido em um terrível acidente, para ele, corretamente, um nome é sempre um nome, vivo ou morto, indiferentemente, e assim saiu, fora do alcance da minha visão, por entre as grandes colunas de nomes dos vivos que parelhava-se com a coluna também colossal do nome dos mortos. Não sei que método de arquivologia utilizou, não sei que critérios tão eficientes este funcionário teve, ao apenas escrever o nome do empresário em um papel e sair, por todos os nomes, pelo labirinto de informações de todos, e me encontrar justamente o pedido, mas o facto é que isso muito me impressionou, pela eficácia, pelo pouco tempo, daquela terrível busca. Demorei-me, trêmulo, com o papel que continha a vida e morte do empresário sem coragem de abri-lo, antes presenciara já um pequeno milagre, que me pareceu o simples achado da pessoa que eu queria pelo funcionário e, durante aquele pequeno momento, comparei-o a um bibliotecário, que deve conhecer todo o universo contido nos livros postos a sua guarda, com a diferença que meu funcionário cuida de histórias menos poéticas, porém mais reais, comparei-o com o labirinto do Minotauro, em que há a vital necessidade do fio de Ariadne para lembrarmos de nossa procedência, e comparei-o com Deus que, se mesmo existisse, segundo os livros sagrados, deve ter um labor parecido, sempre a olhar e catalogar fichas, que somos nós, indistintamente, na vida e na morte. Para maior surpresa, não constava na ficha do empresário a sua morte, ocorrida alguns meses antes, Que significa isso, perguntei, Porque aqui não consta a morte dessa pessoa, Significa que ela esta viva, Como, a morte deste aqui é facto ocorrido e conhecido por todos, Digo, significa que, formalmente, esta pessoa está viva, não me creia mal senhor, com tanto trabalho e tanto tempo neste labor, chega o inevitável momento em que estas fichas são as únicas testemunhas e únicas fontes de minha verdade, Mas se esta pessoa, cujo registro tenho em mãos, morreu, porque motivo não se consta aqui sua morte, esse não deveria ser o processo natural, Deveria, és o fato natural, mas essa pergunta que me fazes não-lho posso responder, Porque não queres, Não, porque não sei, não vês que perguntar para um simples funcionário do registro civil o porquê da inexistência do registro de sua morte é o mesmo que olhar para os céus e perguntar, Ó Deus, porque mataste ele.
Com esse funcionário, descobri que o responsável por encaminhar a prova do óbito para o Registro era incumbência do médico legista, responsável pela averiguação dos motivos da morte, mas esse facto era apenas uma informação burocrática e que já tinha pouco importância, o que realmente me valia naquele momento era saber que o empresário falecido estava vivo, pelo menos no Registro Civil, ao menos que fosse por um descuido humano, de encaminhamento de informações, ou ainda um negligente esquecimento de se apontar na ficha, Este morreu, como Deus deve, em certas ocasiões, também negligenciar ou esquecer, permitindo vidas ceifadas antes da hora, ou pessoas esquecidas com longa vida aqui na terra. Andando pelas ruas, entre vidas e nomes, um sentimento novo surgiu, um sentimento feliz, que respondia minhas indagações do dia da reunião do partido e, por esse motivo, decidi ir ao médico legista, para ouvir de sua boca os motivos pelos quais não se constava a morte do empresário. Estes devaneios apenas saíram de minha cabeça quando escutei um mendigo com um cartaz apoliptíco e gritando, Jesus vive, pelo que parei, olhei e o respondi, Está certíssimo, nunca disse coisa tão certa em sua vida, e ele, Isso irmão, certamente aí vive um coração contrito, não nos demoremos mais no pecado, busquemos Jesus, e eu, Sim, é isso que faço exatamente nesse momento, e ele concluiu, Vá em paz então, quem busca Jesus, busca a vida eterna. Com essa benção parti, embora não tivesse pretensões tão altas e embora em meu ínterim soubesse que nossos sujeitos eram diferentes, mas mesmo assim as coincidências vieram a calhar e, posso dizer agora, devo ser uma das poucas pessoas que já foram conversar com o médico legista sobre a terrível morte de fulano e mesmo assim radiante de felicidade. Nem mesmo o pesado ambiente do Instituto de Medicina Legal alterou meu animo, nem mesmo quando me foi permitido entrar, pelo ambiente escuro e por entre aquelas gavetas, que continha cada qual o seu nome e, dentro, um corpo sem vida. Sem cerimônias perguntei ao médico, quero que me diga o que sabes da vida de Jesus Alcântara Machado e, com essa pergunta, ele se assustou, embora seu rosto não tivesse ficado lívido como o do Porteiro e como o da Mulher do Piloto, que não estavam habituados a falar da morte e, assim me disse, Venha para dentro e te direi tudo o que sei. Segui-o para dentro do Instituto, para salas geladas, com muitas gavetas, cujas identificações eram feitas da maneira singular A-2, J-8, ou K-9, por exemplo, e me deparei com alguns corpos, uns em perfeita conservação, como se apenas repousassem um sono tranqüilo e efêmero, outros já com sinais de decomposição, outros ainda mutilados, vitimados talvez por acidentes, como o que ocorreu com meu procurado. Espero que não estejas assustado com todos esses corpos, disse ele, Não me assusto não, tenho mais medo dos vivos, respondi eu, O quer dizer com isso, perguntou ele, parando e olhando directamente para mim, Ora, quero apenas dizer que tenho mais medo dos vivos, porque estes sim podem me fazer algum mal, ao contrário desses corpos que não podem me alcançar, de toda forma o que disse foi apenas uma frase, dessas já prontas, não me leve tão a sério, Ah bom, disse-me, ainda contrafeito com minha presença e com aquele diálogo. Por fim, abriu uma porta, que desembocava em uma sala circular, extremamente branca e extremamente iluminada, sala esta simples, com um armário, contendo alguns utensílios próprios da profissão, como bisturis, facas, amoníacos, formol, linhas de costura, e um circulo giratório central, menor, que era a cama dos corpos que ali passavam, e ainda umas três ou quatro cadeiras, espalhadas pela sala. Diga-me, o que queres saber da morte de Jesus de Alcântara Machado, corrigi-o, Quero saber da vida de Jesus de Alcântara Machado, Como assim, não sabes por acaso que ele morreu em um acidente aéreo, Sei, como todo mundo sabe, mas sei mais, sei que no Registo Civil consta que ele vivo está, da mesma forma que eu e você, E quem é o senhor para querer saber essas coisas, um parente ou amigo, Não, não sou nada, mas acho que não seja ilícito, pelas leis de nosso País, ou ainda imoral, por nossas normas consuetudinárias, que alguém tenha curiosidade de saber sobre a vida e morte de alguém, mesmo que esse alguém seja desconhecido, a vida e a morte, esses dois fatos elementares, não são como a privacidade ou os dados bancários, que são sigilosos, mas são sim públicos, Não importa, queres saber algo que não te pertences, velho, vá chorar teus próprios mortos, deixe os outros em paz, Não pertences a mim nem a você, como também não nos pertencem nenhuma morte, nem a nossa própria, Creio que posso dizer que tua morte me pertence sim, sabes que está velho, talvez não dure um dia ou uma década, lembre-se deste lugar, olhe bem para esta sala, já a que próxima vez que aqui estiver, abrir-te-ei e o costurarei, sem dó, sem piedade, teu corpo me pertencerá, por alguns momentos, Pois então como benevolência, diga para este velho, que daqui algum tempo terás, se tu também teve por alguns momentos o corpo de Jesus Alcântara Machado, És insistente e te direi, embora nada poderás fazer, tua própria morte já se avizinha e creio que seja melhor te preocupar com esta. Com o coração palpitante, talvez pela praga, talvez por saber a verdade, escondi minhas mãos, suadas e tremulas, fiz-me silêncio e apenas escutei a voz raivosa do médico legista, que não parou um segundo de mexer nos bisturis da mesa circular, Quem morreu no acidente foi o piloto e não Jesus, o corpo que aqui esteve foi do piloto e, no velório, com o caixão fechado, ninguém pode saber que aquele não era Jesus, que sua morte fora uma farsa, Mas porque fizeste isso, Após o acidente, um corpo foi encontrado e trazido para cá, ainda não identificado e pouco tempo depois, recebi a visita do sobrevivente que contou em prantos sua terrível história e sua falência, dizia ele em um convulsivo choro que deveria ser o morto e não o piloto, porque, se fosse ele quem tivesse sucumbido, ao menos a família ganharia o dinheiro do seguro de vida, que seria vital para a fábrica, E assim ele pediu para que trocassem, Não, não pediu, eu que sugeri, para mim pouco importa quem morreu ou quem vive, só troquei os nomes e cuidei para que não investigassem a vida do piloto, por que assim descobririam a verdade, menti para a esposa de Jesus e para a esposa do Piloto, Por que, perguntei atônito, Por que esta foi a notícia que mais os agradou, respondeu-me, sem culpas, A esposa do empresário continua sua vida, pode ter certeza que, para ela, assim como para Jesus, a morte foi uma forma de manter a honra e o poder de seu sobrenome, ao contrário de sua vida, que seria motivo de risos, e a vida do Piloto, ao menos para a Mulher deste, é mais reconfortante do que a morte, não importa se esta vida seja longe, seja separada de sua própria família, Não posso ter toda essa certeza, respondi e, em seguida, perguntei-o, Achas mesmo que as duas famílias não sabem o que ocorreu, Não posso adivinhar o que se passa na cabeça dessas esposas, o que cuidei foi apenas de dar a notícia, se elas não acreditaram, fingiram muito bem.
Sai do Instituto Médico Legal com a confirmação de que minhas evidências estavam corretas, as quais rememorei caminhando enquanto saia do local e que agora posso falar, para que saibam todos o raciocínio que me ocorreu. Primeiro, uma morte bem vinda, de um empresário falido, recoberto de dívidas, de credores, de injurias e uma exorbitante quantia paga pelo seguro de vida, feita ainda nos tempos em que reinavam as bolachas da família Alcântara Machado, como pude confirmar por jornais e, ainda, ao olhar a imponente fábrica, perfeitamente adaptada aos novos tempos, às indústrias modernas e estrangeiras , segundo, o estranho caso do Piloto, que não mais retornou para casa depois do acidente, o acidente que vitimou seu patrão e que, possivelmente, o traria muitas complicações na justiça e na polícia, se fosse comprovada a sua negligência no pouso fatal, terceiro, o facto da evidência deixada pelo médico-legista, O Sr. Jesus está presente na casa dos mortos, uma vez que seu nome, sua foto e toda a sua memória estão encaixotados em uma lápide de mármore muito fina e, no entanto, não deixa de viver, ao menos nominalmente, já que, no registo Civil, assim consta que é – vivo. Com esse conjunto probatório, regalei-me, como um desses fantásticos detetives que detêm perspicazes e tenazes linhas de raciocínio, mas meu orgulho durou pouco, talvez frações de segundo até eu me dar conta que não era tão perspicaz assim, um outro elemento bem mais pueril havia influenciado em meu raciocínio. Para acabar com meu pequeno mistério, havia alguma coisa a ser feita e decidi fazer naquele mesmo momento, logo após ter minha vida maldita por aquele que será certamente o açougueiro do meu corpo - decidi ir novamente ao cemitério. E fui, com a esperança que logo se transformou em realidade, não mais me espreitavam os corpos da morte como outrora, não mais escutavam vozes familiares e desconhecidas, gritos de jovens e lamúrias dos velhos, gritos embrutecidos dos homens e choros sentidos de raparigas em flor, tudo era silêncio, tudo voltado ao seu estado natural, as moléculas, segundo a segundo, transformando-se na terra, retornando ao seu estado primitivo, neste seu incansável ciclo, para outra vez formar corpos de bebês chorosos, de torrentes cíclicas ou de plantas pouco duradouras. Tudo, todos, deixando a cada segundo de ser o que foram, cada vez mais distantes do nome constante da lápide a poucos metros, que serve de lembrança aos que continuam vivos, mas nada significa para os que estão mortos, é um nome, como “Cão”, “Vida”, “Baralho” ou mesmo os terríveis como “Suicídio”, “Enchente”, “Peste” ou “Morte”. Com estes pensamentos, parei, pensei, Os nomes são pouco importantes, pouco importa eu chorar diante do túmulo de Jesus ou de Fulano ou Beltrano já que agora são todos iguais. Mas para alcançar o propósito que me levara ao cemitério, era necessário ir ao féretro onde devia estar os restos mortais do empresário que não morreu e a este fui, lentamente, o caminho decorado, a certeza do que encontraria pela frente. Olhei a foto do empresário, a foto certamente dos bons tempos, do auge das bolachas, a foto colorida, com o cabelo ainda escuro, o riso ainda largo, ainda sem pés de galinha ou rugas, sem a expressão de cansado e sem as olheiras escuras, características estas que ficaram marcadas em todos os jornais, no dia em que o avião caiu. Mas o cerne de tudo aquilo era outro, além de se estar contente ou triste, velho ou novo, bem conservado ou putrefado, era sim, quem era aquela pessoa, definitivamente, e o era a foto e aquele que, nesse momento, apertou meu ombro, o Barbudo sem nome. Como estás, Jesus, saudei-o pelo nome que lhe foi dado na pia, Não digas isso, respondeu-me, Essa pessoa morreu e seu esquife está diante de nós, não estás vendo, Estou, mas essa pessoa não morreu, Não, retrucou-me, Mas como é que aqui estás então, Essa pessoa se suicidou, o que é diverso, Pelo que sei, essa pessoa morreu de acidente de avião, um acidente que, segundo informações oficiais, ocorreu por problemas mecânicos e, por tudo isso, creio que não possa nominar essa morte de suicídio, mas sim de fatalidade, Não importa o nome que queiram dar, você nunca leu um livro meu, Não, porque, Porque simplesmente divirjo da história oficial, sempre acreditei que a verdadeira história, atrás da história contada, tem mais poesia, Pois essa não deve ser contada, não tem poesias, mas sim lágrimas, As lágrimas sempre contem poesias escondidas, camarada, mesmo o de uma pessoa que decidiu matar a si próprio e não creia ser isso um suicídio, Não me matei de verdade, já que aqui estou, Não, como tu a pouco me disse, Jesus está morto bem aqui, na frente de nós, você é outra coisa, distinta, inominada, e a ti pergunto, o que és, Sou aquele que sou, como já escutei do evangelho, sou o nada, a ausência de caráter, de vida, de família, de amigos, vivo perambulando entre círculos, minha barba desgrenhada e minha magreza não permitem que me reconheçam de pronto, com o passar de um certo tempo, deixo o círculo, para que não reconheçam meus traços e para que eu mesmo não possa me trair, Como daquela vez que te insultaram, perguntei, Como daquela vez que insultaram Jesus, respondeu, Eu devia me desapegar completamente da pessoa que fui, do empresário bem sucedido, das mulheres sempre ao meu redor, dos muitos risos dos outros, das coisas que o dinheiro sempre consegue comprar, mas não, as vezes esqueço-me que não sou nada, e me traio ou choro, com saudades do passado, Tens saudades do passado, Quando esqueço o que sou, tenho, quando me recordo, não, o Nada não pode ter lembranças, logo não pode ter saudades.
A extensa conversa apenas acentuava o cansaço que me acometia, as grandes caminhadas, as maldades ditas pelo Médico legista e a última coisa que eu queria escutar eram justificativas de alguém que se matara, as razões do suicídio, o pensamento focado na fábrica, no bem estar da família, etc., etc., e assim tratei de me despedir, Se és nada, creio que seja melhor não conversarmos, aos outros deve ficar feio este monólogo de um velho no cemitério, creio que me darão por senil e débil, Faça como queres, com a condição que nunca reproduza o diálogo que travamos, O monólogo que travei, caçoei, Se reproduzido, será incompreensível e sem sentidos, pode ficar tranqüilo. Ele riu ou eu assim fingi acreditar, e disse, Vás, esqueças de mim, se lembrares, lembra apenas de minha memória, porque é apenas isso que sou, És o nada, corrigi-o novamente, És como tudo aqui no cemitério, apenas matéria orgânica, és nada e, contradição, és Todos os Nomes que neste cemitério constam, Não te julgues muito superior, porque tem um nome, e porque assim as pessoas o chamam, seu futuro será este e algum dia, estaremos aqui, lado a lado, não importa, não importa se hoje és importante, porque um dia também o fui, não importa se tem amigos, por que um dia também os tive, não importa se hoje te chamam José, Saramago que seja, por que um dia também me chamaram Jesus.